Antigamente as bibliotecas da USP recebiam quantidades expressivas de crianças e adolescentes que vinham “fazer pesquisa”. Meu antigamente, só para constar, é a década de 1980, mas provavelmente o fenômeno acontecia também em décadas mais remotas, quando eu mesma era uma criança que pesquisava nas enciclopédias lá de casa, porque eu tinha enciclopédias em casa e não havia bibliotecas nem USP na cidade onde morava.

Era uma tristeza, às vezes. Muitas crianças vinham de longe, às vezes sozinhas, às vezes com um pai ou mãe provavelmente perdendo horas de trabalho, para descobrir que não, a USP não tinha um livro sobre aquele assunto em português ou, se tinha, não podia emprestar para aquela criança, mesmo que o pai “se responsabilizasse”. Mas, é claro, a USP tinha enciclopédias e máquinas de Xerox, uma combinação que, na época, fazia o papel da internet. Ou do professor. Era triste também porque, em muitos casos, uma visita a uma biblioteca pública bem mais próxima resolveria o problema, mas o professor havia dito que era para ir até a USP, porque “na USP tinha”. Ainda me lembro da expressão daqueles perdidos pesquisadores quando eu mostrava a listinha de endereços de bibliotecas públicas, cuja existência a maioria deles ignorava. O professor também.
No meu caso era mais difícil resolver o problema, porque eu trabalhava numa filmoteca. E, atenção, no início tratava-se de um acervo de filmes em 16 milímetros, não de vídeos e DVDs. A gente emprestava filmes para as escolas, mas era necessário trazer uma carta da escola. Nada muito complicado, mas significava atravessar novamente a cidade. Um telefonema do professor ou funcionário da escola teria poupado o tempo do aluno, mas o professor havia dito que era só “ir lá na USP” e pegar o filme que, com frequência, nem existia. Esse era o maior problema, o filme que não existia.
O problema do filme que a gente não tinha no acervo dava para contornar mostrando diversos catálogos de outras filmotecas, ajudando a escolher, explicando como retirar filmes de lá etc. Às vezes a conversa azedava, porque o maldito professor havia garantido que era só "ir lá na USP" e o aluno ficava irritado e desconfiado.
“Mas, como, tem sim, o professor disse que tem”!E eu, nem sempre paciente: “O professor disse, mas sou eu que trabalho aqui e estou te dizendo que não temos. Você quer que faça um filme para você? Manda o professor ligar para mim que eu explico umas coisinhas para ele”.
Desnecessário dizer que nunca um professor desses me ligou. Que pena!
Algumas crianças pediam um “papel dizendo que eu estive aqui e que vocês não têm o filme”. No início, muito jovem, eu me recusava, achando um absurdo duvidarem da minha palavra. Depois que entendi melhor as coisas comecei a fornecer o tal papel.
E o filme que não existia?
Nem sempre a molecada encontrava o que procurava em nenhum catálogo disponível, porque era difícil existir um filme que correspondesse exatamente ao tema do seminário que o aluno precisava fazer ou ao tema da aula que o professor deveria dar. E precisava corresponder exatamente, já que a ideia era justamente substituir a aula ou seminário por uma projeção que eliminasse a necessidade de falar, explicar e pensar.
Aí começavam as negociações: não temos um filme sobre as relações entre fotografia e pintura, mas e se você levasse este sobre pintura e fizesse você a comparação? E só você ler um pouco sobre fotografia .... Não colava. Filme sobre as causas da proclamação da república? Bem, me diga quais foram as causas para me ajudar a procurar. Não sei, por isso eu queria um filme, pra não precisar estudar isso ... E a chata da bibliotecária fazendo pergunta difícil!
Eventualmente Silvana ou eu sugeríamos um filme que parecia adequado, mas avisávamos que seria bom a pessoa assistir antes de projetar em sala de aula, para ver se servia mesmo e planejar os comentários. Alguns alunos (professores também) olhavam como se estivéssemos dizendo a coisa mais inusitada que escutaram em toda a vida. Doida, essa moça. Esse pessoal da USP é estranho mesmo, bem que me avisaram.

Num dia particularmente infeliz, um grupinho não quis levar o filme sobre impressionismo, porque precisam de que “falasse” só das
características do impressionismo. O que ofereci “falava” de mais coisas, e as Causas, as Consequências e os Principais Artistas eram trabalho dos outros grupos. Tentei convencê-los a mostrar o filme e explicar só as características, sem sucesso. Na verdade, eles não sabiam o que eram características, causas e consequências. Foram embora tristes, deixando uma bibliotecária mais triste ainda.
Mas havia exceções. Alunos mais espertos e professores menos embrutecidos encontravam, a partir das nossas sugestões, uma forma menos obtusa de usar filmes em aula, e dava certo. Era ótimo quando eles voltavam para devolver o material contando como foi a reação da classe, ou comemorando a nota boa que conseguiram. Lembro-me de professores jovens comentando que nunca haviam pensado naquelas coisas que as meninas da Filmoteca da ECA diziam, que ninguém jamais havia dado dicas tão interessantes sobre filmes e o uso dele. Mas não eram coisas óbvias e simples? Pois é, eram mesmo.
Na época do videocassete tudo ficou ainda mais divertido. Ajudávamos o pessoal a encontrar, num filme que não parecia ter muito a ver com o assunto procurado, um trecho que poderia ser pertinente. Ou vários trechos em filmes diferentes. Era uma surpresa para muita gente, quem diria.
O mais interessante era que a gente aprendia com um estudante ou professor, e passava a informação para outro. Olha, um professor que veio aqui, passou este filme, depois passou aquele outro e disse que foi o maior sucesso, por que você não tenta?
Esse tipo de trabalho era feito em todas as bibliotecas da USP, pelo que me lembro. Por mais que os bibliotecáios reclamassem da sobrecarga de trabalho provocada por esses usuários que não eram nosso público alvo, por mais que muitos colegas não tivessem paciência alguma com eles, muitos os orientavam de uma forma que eles nunca haviam visto.
Hoje esse pessoal de escolas não frequenta tanto as nossas bibliotecas. Não precisam, agora eles tem Google e Wikipédia. De certa forma é bom, ninguém precisa mais atravessar a cidade para xerocar enciclopédia ou levar um NÃO TEMOS no meio da ideia.
Mas fico me perguntando quem dá as dicas sobre como usar a informação. Quem ajuda a entender que o filme não precisa ser literalmente sobre o tema do trabalho, principalmente se o trabalho for sobre “A importância da comunicação no Brasil de hoje”. Quem questiona as instruções do professor e propõe formas diferentes de fazer o trabalho?
Bibliotecários, pelo menos os bons, são profissionais que sabem como a informação é produzida, como é organizada e como pode ser usada, e conseguem reunir esses conhecimentos para ajudar um indivíduo a encontrar algo que ele nem mesmo sabia que precisava. É esse tipo de habilidade que vai ser perdida quando os bibliotecários deixarem de existir.