terça-feira, 22 de maio de 2012

Dias de festa

Participei ontem de uma reunião na qual o projeto do novo prédio da ECA foi apresentado aos funcionários. É um projeto bonito, com vários terraços e outras áreas que o arquiteto denominou de espaços “de estar”.

Achei ótima a ideia, mas receio que nem todos os funcionários sejam da mesma opinião. Alguns colegas da administração da escola e de Departamentos de ensino reclamaram do possível futuro barulho de festas e outras atividades típicas de alunos nos espaços "de estar". Aparentemente, os colegas querem espaços de estar quietinho, nada de estar batucando, cantando e tomando cerveja.

Sei que as festas na “prainha” atrapalham aulas e incomodam os usuários da Biblioteca, que já recebeu muitas reclamações. Mas não entendi muito bem uma coisa, vamos ver se alguém me explica. Por que uma pessoa que não gosta de estudantes vem trabalhar numa instituição de ensino? E por que um funcionário que não suporta agitação continua trabalhando na ECA?

Acho importante tentar manter os locais de festas longe de salas de aula e de bibliotecas, até porque, como disse o arquiteto, isolamento acústico não resolve tudo. Mas, obviamente, por mais que se tente organizar espaços e horários, é inevitável que ocorram alguns conflitos entre ensino, pesquisa e festas. Para isso a única solução é exercitar um pouco de respeito, de um lado, e tolerância, de outro. Banir simplesmente festas e batucadas para fora do campus, como chegaram a sugerir alguns colegas não é algo aceitável, a meu ver. Festas, liberdade e alegria sempre serão ingredientes importantes da vida acadêmica, sobretudo na ECA, escola de gente criativa.

“Aqui não é escola de samba”, foi o argumento que ouvi ser usado para justificar a má vontade com os ensaios de baterias no campus. Ora, por que não? Qual é o problema com o samba? Se continuarmos assim vamos virar escola de meditação e orações.

Madame diz que o samba democrata, é música barata sem nenhum valor,
Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que samba é vexame
Pra que discutir com madame?

Às vezes suspeito que por trás da preocupação com o barulho o que se esconde é uma simples postura moralista relacionada com o comportamento sexual dos jovens. Felizmente essa não é posição dominante entre os funcionários da ECA.

Não me interpretem mal, por favor. Sou uma velha bibliotecária comportada, sossegada, com um eterno zumbido no ouvido que tem me forçado a evitar festas e shows. Gosto de silêncio e calma, mas deixem-me dizer uma coisa: entre o barulho e a repressão, prefiro o barulho. E se eu tiver que escolher entre a baderna e o quartel, fico com a baderna.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A fúria



Quando terminei de ler o texto Dê adeus às bibliotecas, do Luís Antônio Giron, pensei, sempre bobinha, em escrever um comentário concordando com diversos aspectos do texto, mas tentando tirar a má impressão que os leitores da coluna pudessem ter ficado de bibliotecários e bibliotecas. Fui lá nos comentários e quase infarto de susto e vergonha com o comportamento dos bibliotecários protestando contra o que consideraram uma ofensa à categoria. Ou “classe”, como dizem os colegas que não sabem a diferença entre classe social e categoria profissional.

Protestar e reclamar é direito de quem se considera ofendido, mas fazê-lo com o mínimo indispensável de boa educação é obrigatório. Principalmente de profissionais que trabalham com informação e que atendem público! Gente que deveria ser capaz de lidar com críticas e com expectativas frustradas de pessoas que não foram bem atendidas nas bibliotecas. Os comentários postados pelos bibliotecários são, com poucas exceções, agressivos, carregados de sarcasmo, ofensas e xingamentos dirigidos ao autor do texto.

Os bibliotecários se enfureceram particularmente com a referência ao que o jornalista considera “ aquela suave descortesia típica dessa categoria profissional, como se o visitante fosse um intruso a ser tolerado, mas não absolvido” e revidaram não com suave descortesia, mas com tosca grosseria. Muitos simplesmente não entenderam a ideia central do texto, sua tristeza e seu lamento, só registraram o crime de lesa-bibliotecários.

No momento em que escrevo, já são 18 páginas de comentários no post, quase todos de bibliotecários irritados. E não vi nenhum, até o momento, de usuários de biblioteca defendendo os bibliotecários, dizendo que sempre foram bem atendidos por nós, que somos legais e competentes, mas posso ter perdido alguma página.

Os colegas furiosos não pensaram na imagem que estão dando da profissão aos leitores da coluna? Não se deram conta de que, com sua reação desmedida, estão na prática confirmando a opinião negativa do jornalista sobre nossa profissão? Quem não frequenta bibliotecas com bons bibliotecários, ou quem já teve uma experiência ruim como a do Giron, deve estar achando que “suave descortesia” é elogio.

E o mais grave é que o post pode ser lido como uma reclamação de uma pessoa que foi mal atendida numa biblioteca, cheia de decepção e de melancolia pelo possível fim das bibliotecas. E os bibliotecários respondem dessa forma. Tanto ressentimento, tanto complexo de inferioridade, tanta arrogância.

Engraçado. Eu aprendi que reclamação de usuário, mesmo que nos ofenda ou magoe, deve ser respondida com educação, paciência e humildade. Antes de qualquer coisa, temos que compreender o motivo da queixa. Muitas vezes a reclamação parece não ter fundamento, mas tem um motivo. Exemplo típico, a pessoa que vem reclamar de uma norma interna perfeitamente razoável às vezes está apenas querendo receber um pouco mais de atenção e ter suas necessidades levadas a sério.

Os “ofendidos” exigem retratação, querem que as entidades de bibliotecários tomem providências, fazem um enorme drama por uma questão tão banal. Na minha opinião, a única providência cabível seria pedir desculpas ao jornalista pelos insultos pessoais e aos leitores de sua coluna pela falta de educação de tantos bibliotecários.

Meu consolo é saber que existem bibliotecários elegantes e inteligentes. Leiam, por exemplo, o post da Dora Garrido escrito em resposta ao Giron. Foi com muito alívio que vi, num grupo do Facebook, um rapaz da turma dos irritados mudar de posição depois de ler esse texto. Nem tudo está perdido, afinal.

sábado, 12 de maio de 2012

Carreira

Parece que não tem jeito mesmo. Podem reformular o plano de carreira dos funcionários quantas vezes quiserem, mudar critérios, avisar que dessa vez " vamos beneficiar quem trabalha de fato" ou quem mais "se entrega", como foi um
tanto comicamente anunciado nessa última bem intencionada tentativa. Enquanto a organização da Universidade permanecer baseada em estruturas autoritárias, em hierarquias de forte aroma feudal, a avaliação dos funcionários vai continuar dependendo de simpatias pessoais e conveniências políticas de chefias e diretorias.

As mesmas histórias de sempre se repetem. Chefe reclama o ano todo da Maria dos Prazeres para a Maria das Dores. Na hora da promoção, quem ganha é a Maria dos Prazeres, para "dar um estímulo". E porque chefe sabe que a Das Dores e responsável e vai continuar trabalhando como sempre. Ninguém entende porque o Otacílio, tão parado e pouco inteligente, foi beneficiado em detrimento do Severino, cara que estuda, trabalha pra burro e resolve todas as paradas. É simples: funcionário fraco não ameaça ninguém, por isso chefe gosta tanto desse tipo de subordinado. Astolfo e Rufina não fazem nada o dia todo, mas são elogiadíssimos porque UM DIA, em 2010, levantaram as bundas
da cadeira e fizeram UM trabalho que o chefe achou bonitinho ou que o chefe, e somente ele, considera importantíssimo. Chamaram atenção com a raridade do gesto, enquanto os colegas que trabalham bem o tempo todo não são notados porque neles isso é normal.

Uma das coisas mais engraçadas do formulário de avaliação é aquele item que pergunta de o funcionário realiza o esperado ou mais do que o esperado. Por que engraçado? Porque raramente o funcionário sabe, de fato, o que esperam dele. Nem o chefe.

E há também o famoso equilíbrio. Os setores precisam ter mais ou menos a mesma quantidade de funcionários promovidos, para que nenhum chefe setorial comece a sentir melhor do que os outros e desequilibre as patéticas estratégias de manutenção do poder elaboradas por um chefe supremo inseguro. Um dos chefinhos é muito forte? Ora, usemos a avaliação na carreira como forma de enfraquecê-lo, mesmo que seja necessário cometer óbvias injustiças. Injustiças não são problema para gente cujo objetivo é se manter no cargo, conseguir cargo melhor ou garantir seu futuro quando perder a droga do cargo. E só cuidar do equilíbrio.

Os critérios, orientações e métodos para fazer uma avaliação mais ou menos realista até que existem, mas quem garante que estejam sendo seguidos? Quem fiscaliza? Quem discute com caciques e subcaciques suas estratégias políticas, suas vinganças pessoais, suas trocas de favores?

Bem, mas apesar de tudo isso algumas pessoas não receberam a justa promoção que mereceram? Claro, sempre é assim. Se não fosse o processo não receberia a legitimação necessária. Isso também vale para os recursos. O funcionário pode entrar com recurso, naturalmente, mas como a avaliação desse recurso depende das mesmas forças que produziram resultado que o funcionário contesta, a medida acaba servindo mais para legitimação do que para resguardar de fato quem se considerar prejudicado.


Querem ver se o resultado deve mesmo ser levado totalmente a sério? É só examinar a lista dos funcionários mais beneficiados e ver o cargo que ocupam. Todas as chefias graúdas, aquelas que decidem quem leva ou não leva, subiram verticalmente em sua unidade?

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Mais seriedade, por favor

A USP acaba de inventar uma nova forma de fazer o funcionário perder tempo, evitando assim que ele trabalhe mais do que o indispensável. É a nova folha de frequência, na qual a gente precisa marcar rigorosamente direitinho os horários de entrada e saída, intervalos de almoço e jantar também. Não basta o chefe monitorar a galera para evitar safadezas, sem se incomodar demais com uns minutinhos a menos que o infeliz trabalhe no dia. Não, agora precisa marcar DIREITINHO cada minuto.

Até aí tudo bem, é honesto com a população para quem trabalhamos. O problema é que eu não posso, de jeito nenhum, chegar e sair pontualmente no meu horário. Tenho que chegar um dia 2 minutos mais cedo e sair 2 minutos mais cedo, no dia seguinte preciso me lembrar de atrasar uns 3 minutos e compensar no mesmo dia, ou na mesma semana. Não posso chegar todo dia exatamente no meu horário? Não, porque isso seria horário britânico e nós estamos no Brasil. Horário britânico não pode. Minto, até pode, mas não todos os dias, porque TODO MUNDO sabe que ninguém é tão pontual assim.

Tá bom, mas ... Que diferença faz? Se o funcionário cumpre sua carga horária, qual é o problema se ele marca que chegou todos os dias às oito, ainda que, na realidade, chegue uns minutinhos mais tarde ou mais cedo?

Para quem ainda não entendeu, explico: querem instalar controle eletrônico para todos, mas não querem simplesmente fazer isso e acabou. Querem que a gente peça. Querem poder dizer que os próprios funcionários estão clamando pelo ponto eletrônico. A folha de frequência não britânica é o nosso novo bode na sala.

E muitos funcionários já morderam a isca, porque dá um puta trabalho assinar a nova folha, principalmente para os chefes, que precisam vistar cada dia e, supostamente, conferir se as marcações do pessoal estão corretas. Bem, para quem está dizendo que ponto eletrônico seria mais fácil, vou avisando: não é não. Já trabalhei assinando ponto no relógio, era um inferno. Todos os dias alguém se atrasava mais do que o permitido, e o chefe precisava fazer um papel justificando a contravenção. Ou o infeliz esquecia de assinar o ponto, e o chefe precisava fazer um papel perdoando o avoamento.

Eu me esquecia de “bater o ponto” pelo menos duas vezes por semana, porque minha preocupação, idiota que sempre fui, era trabalhar, abrir a porta da seção, começar a atender o público com pontualidade. E na saída, pior ainda, eu só pensava em ir jantar para depois ir pra aula. Para não falar na neurose diária: só de saber que estava atrasada e que não ia dar tempo de bater a droga do ponto e ficava mais atrapalhada do que habitualmente sou pela manhã, fazia a maior confusão, perdia a chave da casa, não achava a bolsa, não conseguia subir o zíper do vestido, queimava no ferro a única peça de roupa limpa disponível e me atrasava mais ainda.

Controle rígido de horários de entrada e de saída só presta para atormentar o funcionário sério, porque o vagabundo sempre vai achar um jeito de continuar sendo vagabundo, de passear o dia inteiro, de tomar cafezinho a cada meia hora e passar o intervalo entre um cafezinho e outro no Facebook. É simples, basta contar com a tolerância infinita de um chefe que está pouco ligando para o trabalho ou, pior, que conta com a cumplicidade do funcionário relapso para ocultar suas próprias falhas.

Não tive muitos problemas disciplinares com funcionários durante toda minha carreira de chefe na USP, por motivos muito simples:

Dou exemplo. Não exijo de ninguém mais do que exijo de mim mesma.
Não sou mesquinha: não pego no pé de funcionário que trabalha direito por causa de 5 ou 10 minutos de atraso.
Se for necessário, não tenho vergonha nem medo de ser chefe e “enquadrar” abusos, porque sou paga para isso.

Profissionalismo é mais eficiente do que controles autoritários e dá bem menos trabalho.

Querem seriedade? Então paguem horas extras para o funcionário que precisa trabalhar além do seu horário ou no fim de semana, ao invés de pagar em folgas que não podem aparecer no registro de frequência. Mais seriedade? Funcionário que chega na hora e sai na hora, mas nos intervalos não faz absolutamente nada deve ganhar uma advertência, não uma promoção na carreira.

E me respondam, por favor, como deve proceder o funcionário a quem pedem para entregar a folha na manhã do dia 20, antes do final do expediente, para anotar o horário de saída certinho e sem anglicismos? O sujeito deve antecipar o futuro e prever que vai sair às 18 horas, 39 minutos e 10 segundos?

domingo, 15 de abril de 2012

O filme que não existia

Antigamente as bibliotecas da USP recebiam quantidades expressivas de crianças e adolescentes que vinham “fazer pesquisa”. Meu antigamente, só para constar, é a década de 1980, mas provavelmente o fenômeno acontecia também em décadas mais remotas, quando eu mesma era uma criança que pesquisava nas enciclopédias lá de casa, porque eu tinha enciclopédias em casa e não havia bibliotecas nem USP na cidade onde morava.

Era uma tristeza, às vezes. Muitas crianças vinham de longe, às vezes sozinhas, às vezes com um pai ou mãe provavelmente perdendo horas de trabalho, para descobrir que não, a USP não tinha um livro sobre aquele assunto em português ou, se tinha, não podia emprestar para aquela criança, mesmo que o pai “se responsabilizasse”. Mas, é claro, a USP tinha enciclopédias e máquinas de Xerox, uma combinação que, na época, fazia o papel da internet. Ou do professor. Era triste também porque, em muitos casos, uma visita a uma biblioteca pública bem mais próxima resolveria o problema, mas o professor havia dito que era para ir até a USP, porque “na USP tinha”. Ainda me lembro da expressão daqueles perdidos pesquisadores quando eu mostrava a listinha de endereços de bibliotecas públicas, cuja existência a maioria deles ignorava. O professor também.

No meu caso era mais difícil resolver o problema, porque eu trabalhava numa filmoteca. E, atenção, no início tratava-se de um acervo de filmes em 16 milímetros, não de vídeos e DVDs. A gente emprestava filmes para as escolas, mas era necessário trazer uma carta da escola. Nada muito complicado, mas significava atravessar novamente a cidade. Um telefonema do professor ou funcionário da escola teria poupado o tempo do aluno, mas o professor havia dito que era só “ir lá na USP” e pegar o filme que, com frequência, nem existia. Esse era o maior problema, o filme que não existia.

O problema do filme que a gente não tinha no acervo dava para contornar mostrando diversos catálogos de outras filmotecas, ajudando a escolher, explicando como retirar filmes de lá etc. Às vezes a conversa azedava, porque o maldito professor havia garantido que era só "ir lá na USP" e o aluno ficava irritado e desconfiado.

“Mas, como, tem sim, o professor disse que tem”!E eu, nem sempre paciente: “O professor disse, mas sou eu que trabalho aqui e estou te dizendo que não temos. Você quer que faça um filme para você? Manda o professor ligar para mim que eu explico umas coisinhas para ele”.


Desnecessário dizer que nunca um professor desses me ligou. Que pena!

Algumas crianças pediam um “papel dizendo que eu estive aqui e que vocês não têm o filme”. No início, muito jovem, eu me recusava, achando um absurdo duvidarem da minha palavra. Depois que entendi melhor as coisas comecei a fornecer o tal papel.

E o filme que não existia?


Nem sempre a molecada encontrava o que procurava em nenhum catálogo disponível, porque era difícil existir um filme que correspondesse exatamente ao tema do seminário que o aluno precisava fazer ou ao tema da aula que o professor deveria dar. E precisava corresponder exatamente, já que a ideia era justamente substituir a aula ou seminário por uma projeção que eliminasse a necessidade de falar, explicar e pensar.

Aí começavam as negociações: não temos um filme sobre as relações entre fotografia e pintura, mas e se você levasse este sobre pintura e fizesse você a comparação? E só você ler um pouco sobre fotografia .... Não colava. Filme sobre as causas da proclamação da república? Bem, me diga quais foram as causas para me ajudar a procurar. Não sei, por isso eu queria um filme, pra não precisar estudar isso ... E a chata da bibliotecária fazendo pergunta difícil!

Eventualmente Silvana ou eu sugeríamos um filme que parecia adequado, mas avisávamos que seria bom a pessoa assistir antes de projetar em sala de aula, para ver se servia mesmo e planejar os comentários. Alguns alunos (professores também) olhavam como se estivéssemos dizendo a coisa mais inusitada que escutaram em toda a vida. Doida, essa moça. Esse pessoal da USP é estranho mesmo, bem que me avisaram.



Num dia particularmente infeliz, um grupinho não quis levar o filme sobre impressionismo, porque precisam de que “falasse” só das características do impressionismo. O que ofereci “falava” de mais coisas, e as Causas, as Consequências e os Principais Artistas eram trabalho dos outros grupos. Tentei convencê-los a mostrar o filme e explicar só as características, sem sucesso. Na verdade, eles não sabiam o que eram características, causas e consequências. Foram embora tristes, deixando uma bibliotecária mais triste ainda.

Mas havia exceções. Alunos mais espertos e professores menos embrutecidos encontravam, a partir das nossas sugestões, uma forma menos obtusa de usar filmes em aula, e dava certo. Era ótimo quando eles voltavam para devolver o material contando como foi a reação da classe, ou comemorando a nota boa que conseguiram. Lembro-me de professores jovens comentando que nunca haviam pensado naquelas coisas que as meninas da Filmoteca da ECA diziam, que ninguém jamais havia dado dicas tão interessantes sobre filmes e o uso dele. Mas não eram coisas óbvias e simples? Pois é, eram mesmo.
Na época do videocassete tudo ficou ainda mais divertido. Ajudávamos o pessoal a encontrar, num filme que não parecia ter muito a ver com o assunto procurado, um trecho que poderia ser pertinente. Ou vários trechos em filmes diferentes. Era uma surpresa para muita gente, quem diria.

O mais interessante era que a gente aprendia com um estudante ou professor, e passava a informação para outro. Olha, um professor que veio aqui, passou este filme, depois passou aquele outro e disse que foi o maior sucesso, por que você não tenta?
Esse tipo de trabalho era feito em todas as bibliotecas da USP, pelo que me lembro. Por mais que os bibliotecáios reclamassem da sobrecarga de trabalho provocada por esses usuários que não eram nosso público alvo, por mais que muitos colegas não tivessem paciência alguma com eles, muitos os orientavam de uma forma que eles nunca haviam visto.

Hoje esse pessoal de escolas não frequenta tanto as nossas bibliotecas. Não precisam, agora eles tem Google e Wikipédia. De certa forma é bom, ninguém precisa mais atravessar a cidade para xerocar enciclopédia ou levar um NÃO TEMOS no meio da ideia.
Mas fico me perguntando quem dá as dicas sobre como usar a informação. Quem ajuda a entender que o filme não precisa ser literalmente sobre o tema do trabalho, principalmente se o trabalho for sobre “A importância da comunicação no Brasil de hoje”. Quem questiona as instruções do professor e propõe formas diferentes de fazer o trabalho?

Bibliotecários, pelo menos os bons, são profissionais que sabem como a informação é produzida, como é organizada e como pode ser usada, e conseguem reunir esses conhecimentos para ajudar um indivíduo a encontrar algo que ele nem mesmo sabia que precisava. É esse tipo de habilidade que vai ser perdida quando os bibliotecários deixarem de existir.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Mais um pequeno esforço

Sei que um dia vou deixar de me preocupar. Mas não hoje.
Se alguém ainda tiver paciência de acompanhar o que penso sobre tratamento de documentos audiovisuais aqui na USP, arrisque a leitura deste texto:

Calma, uma coisa de cada vez...

segunda-feira, 26 de março de 2012

Reconhecimento

Ganhei do DT-SIBi um diplominha, homenagem à minha longevidade uspiana, em reconhecimento à minha suposta “inestimável contribuição ao fortalecimento e engrandecimento” do sistema. De fato, sou mais velha do que o SIBi, já contei isso. E ainda não consegui ver minha inestimável contribuição ser de fato aproveitada, mas isso não é só culpa do DT.

Eu teria sido uma das homenageadas por antiguidade no dia do Churrascão dos Diferenciados das bibliotecas da USP, se tivesse comparecido. Não fui não, esse tipo de homenagem por tempo de serviço não me comove. É como se estivessem me dizendo, tá bom, valeu, agora você já pode ir embora. Mas eu ainda não estou indo embora, até os 70 anos tem muito chão.

Pensei em mandar uma índia vestida de Marlon Brando me representar na cerimônia, mas achei que pouca gente iria entender. E como diabos eu faria para vestir uma índia de Marlon Brando?

Mas até que fiquei agradavelmente surpresa com o diplominha que acabaram me enviando. Poderia ser pior, eu temia que tivessem feito uma placa de alpaca - prata seria demais - em forma de ficha catalográfica. O mais melancólico é que eu soube que alguns colegas ficaram contentes com a homenagem. As pessoas são tão desvalorizadas e esquecidas que gostam até receber medalha pela idade. E pensando nisso, a homenagem do DT tem seu aspecto positivo.

Reconhecimento, para mim, seria ter meu trabalho respeitado e levado a sério, mas aí já é querer demais. Talvez um dia eu me acostume com esse descompasso de expectativas: eu espero muito do meu próprio trabalho, a USP parece nem saber direito o que esperar. Até os 70 anos ainda terei tempo de mudar minha azeda forma de pensar e serão muitas as oportunidades para desistir. Quem sabe um dia ainda vou olhar pro meu hollerith e achar engraçado que me paguem e não me deixem fazer tudo o que aprendi aqui mesmo.