domingo, 19 de dezembro de 2010

Sapatos, orelhas e Tia Ruth

Tento não perder muitas batalhas para o consumismo, especialmente nessa época em que todo mundo parece enlouquecer comprando bobagens numa cidade que se transformou numa gigantesca 25 de Março decorada de forma grotesca. Mas às vezes vacilo.

Quando tinha uns 20 anos cortei o cabelo bem curto pela primeira vez. Como achei que tinha ficado com cara de menino, minha mãe me deu um par de brincos, coisa que nunca havia usado. Gostei tanto da novidade que ela teve vontade de me comprar mais alguns. Respondi que não precisava, porque eu só tinha duas orelhas.

Naquela época eu também só tinha duas calças, um tênis e umas poucas camisetas. Lavava roupa no tanque todo fim de semana e passava rapidinho, se não ficava difícil. Hoje continuo tendo apenas duas orelhas, mas já amealhei cerca de 130 pares de brincos e posso me dar ao luxo de ter um armário de roupas não passadas, do qual às vezes resgato uma calça que nem lembrava mais de haver comprado. Só tenho a dizer em minha defesa que meus brincos são todos de plástico ou vidro – muitos deles feitos em casa - porque não uso jóias. E só gosto de comprar roupas em oferta.

Na semana passada decidi que precisava de outra sandália vermelha, porque a minha não é muito confortável. Nem muito bonita, na verdade. Logo encontrei uma que atendia minhas especificações, exceto o preço. A porcariazinha feita com pedaços de boi custava duzentos e sessenta – 260, é isso mesmo - reais e ficou lá na loja. Nada como um preço abusivo para a gente perceber que, de fato, não precisa de mais uma sandália vermelha. Recebi algumas críticas do tipo “coisa boa custa caro mesmo” e “você pode pagar por isso”. Nem liguei. Prefiro coisas boas com preço razoável ou coisas médias e baratas.

Minha tia Ruth, de quem sinto falta, contou-me uma vez que, quando pequena, queria muito um par de sapatinhos vermelhos. Mas o pai só comprava sapatos pretos para as filhas, iguais para todo mundo. O preço era o mesmo, tia Ruth jamais entendeu porque não pode ter os sapatos que preferia. "Tia, agora você pode comprar os sapatos que bem entender", argumentei. "Mas agora não quero mais, queria naquela época", explicou Rutinha.

Tia Ruth também gostaria de ter estudado e tido uma profissão, mas não foi possível. Vou comprar sapatos vermelhos pelo resto da minha vida, em homenagem à minha tia e também porque gosto e porque posso fazer o que quiser. Fazer, não comprar. E vou tentar não pagar pelos sapatos e brincos, não importa a cor, um preço que considere uma traição às minhas origens familiares. Afinal, um terço dos meus antepassados veio para o Brasil voluntariamente num porão de navio para substituir o trabalho de outro terço, que bem chegou antes, à força, num navio ainda pior.

Minha mãe não tem as orelhas furadas, porque quando menina não podia comprar brincos bonitos, e não gostava dos que podia ter. Depois desistiu. Já tia Ruth era a única pessoa com vergonha de ter orelhas que conheci em toda a vida. Não que as delas fossem feias, eram orelhas normais. Mas um dia, contou-me, estava andando pela rua e começou a reparar nas orelhas humanas achou-as tão feias que voltou para casa vexada, tentando esconder as próprias. Assim era minha tia Ruth.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Procure no computador

Há quem obtenha essa frase como resposta ao pedir orientação a um funcionário de biblioteca. Parece até que uma solução bastante popular para aquele problema do usuário que vem atrapalhar o cara que está jogando FreeCell ou vendo um filminho atrás do balcão.

É muito prático: com apenas três palavras o sujeito ou sujeita despacha o inconveniente e o faz se sentir um bobão, porque todo mundo precisa saber usar um computador.

Antigamente era mais difícil, porque o diligente servidor precisava mandar o usuário procurar no fichário, e não era todo mundo que tinha um fichário em casa. A pessoa não se sentia obrigada, portanto, a saber procurar no fichário e se achava no direito de pedir mais explicações. Hoje esse cidadão que paga impostos e tem direito a ser bem atendido procura se virar sem ajuda mesmo e pode acabar concluindo que não vale a pena procurar uma biblioteca. É mais fácil se virar em casa, com a ajuda do Google.

Com essas simples três palavras o indivíduo não percebe que está traçando seu destino: ser substituído por um terminal de autoatendimento e por um cartaz com uma seta, que será colocado em cima ou ao lado do computador, com os dizeres: procure aqui. Cartaz sai bem mais barato para a instituição e tem a vantagem adicional de ficar simpático, se a gente fizer um bonito trabalho gráfico. Eu faria uns sorridentes bonecos em forma de formiguinha, macaco ou ratinho de biblioteca, ficaria lindo.

E o mais interessante é observar esse tipo de funcionário, cheio de moral e indignação cívica, falar mal de deputado que ganha uma fortuna e não trabalha. Qual é a diferença? Quem recebe um salário menor, mas igualmente pago pela população, pode não trabalhar ou trabalhar mal?

sábado, 11 de dezembro de 2010

Os conservadores

O professor declarou, numa reunião na qual se discutiam mudanças na graduação da ECA, que esses assuntos deveriam ser tratados pelos professores. Alunos ficam alguns anos por aqui e logo vão embora, enquanto os professores permanecem. E que os alunos são mais conservadores do que os professores e estão mais interessados na Prainha do que em melhorar a qualidade dos cursos. Estou resumindo e simplificando o que ele disse, mas foi mais ou menos isso.

De fato, alguns alunos são mais conservadores do que alguns professores. Alguns jovens parecem pensar que a ditadura que os mais velhos combateram era brincadeirinha, e talvez tenham a vida mansa demais para dar o devido valor à rebeldia. Mas alguns professores estão tão convictos de sua modernidade que acham que discordar deles é retrocesso. Outros simplesmente nem tentam mais entender seus alunos, que talvez tenham outra percepção do que é ser conservador.

Se os alunos parecem preferir a Prainha às aulas e atividades correlatas, penso que algo não está funcionando bem, e certamente não é a Prainha. Essa cumpre bem seu papel, afinal. Sou velha e funcionária, também não entendo muito de alunos, mas tenho uma memória boa que é o inferno.

Lembro-me perfeitamente do desânimo e da tristeza que me provocavam algumas aulas do curso de Biblioteconomia, da quais simplesmente fugia. Saía para tomar água e não voltava. A Prainha não era ainda a praia da moda, e como eu não achava a mínima graça no sofá fedido e pulguento do CA, me refugiava em aulas de outros cursos ou ficava na biblioteca, lendo ou fazendo trabalhos para as matérias das quais gostava. É que eu era muito boazinha na época.

Certas aulas me davam a sensação de que algo me estava sendo roubado. A juventude, talvez, ou a criatividade. Só consegui me formar porque naquela época pobre não largava curso pela metade, como não canso de dizer. A presença quase insólita de dois ou três bons professores também ajudou, mas não foi tão decisiva quanto a questão econômica. Deixar um curso que dava a possibilidade de conseguir emprego para fazer Letras ou História não era uma opção.

E o estágio? Não poderia ser uma forma de mostrar ao aluno que a prática profissional do bibliotecário não é necessariamente tediosa? Então acompanhem o que os estudantes andam dizendo enquanto não estão ocupando reitorias ou fazendo sei lá o quê na Prainha:

http://twitter.com/bibliodepressao