segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Descartáveis

Lá vou eu de novo contribuir para a divulgação do boletim USP Destaques. Já fiz isso uma vez e ninguém me agradeceu, vocês acreditam nisso? Mas como não me corrijo facilmente, crédula e teimosa, vamos lá.

No informe 17 de janeiro, o DRH tenta explicar porque 260 funcionários aposentados que permaneciam na ativa foram demitidos, enumerando diversas razões para não permitir que as pessoas se aposentem e continuem trabalhando na Universidade. Alguns motivos são razoáveis, eu concordo que os quadros precisam se renovar. Mas nenhuma das razões apresentadas justifica a demissão abrupta e cruel de pessoas que desejavam continuar trabalhando, sejam lá quais tenham sido seus motivos para requerer a aposentadoria. De pessoas que ficaram repentinamente sem chão, sem saber o que fazer de suas vidas e que, talvez, venham a ter dificuldades financeiras.

Se não é do interesse da USP a permanência de tantos aposentados, a Reitoria não deveria ter permitido que isso acontecesse. Se a atual gestão discorda da anterior em relação a esse ponto, poderia fazer diferente a partir de agora. E se realmente fosse inevitável a demissão dessas pessoas, não seria possível fazê-lo de outra forma? É realmente imprescindível tratar seres humanos como se fossem itens descartáveis?

De acordo com o informativo do DRH, “dentro de três anos, se nenhuma medida fosse tomada, 25% dos funcionários téc¬nico-administrativos seriam aposentados, o que impediria a renovação do quadro de funcionários; dificultaria novas contra¬tações e a passagem de conhecimentos para os mais novos; e dificultaria o cres¬cimento dos trabalhadores mais jovens, que ficariam sem estímulo”.

Bem, e os funcionários que pretendem, como eu, trabalhar até os 70 anos, porque a aposentadoria significaria uma redução muito grande no salário, ou porque gostam do que fazem ou porque têm medo de não saber o que fazer depois? Não vamos empatar a renovação dos quadros?

Qualquer funcionário sério, aposentado ou não, sabe que deve transmitir seus conhecimentos para os mais jovens e só não o faz isso quando não existem condições para tanto. Quando não existe um mais jovem ou quando o mais jovem não quer aprender. Ou quando o mais velho sente que sua experiência não tem importância para a Universidade. A transmissão de conhecimentos deveria ser uma preocupação diária de todos, ou não estamos numa instituição de ensino e pesquisa?

A falta de estímulo, que atinge tanto os mais jovens quanto os mais velhos, é fruto de vários fatores. O mais sério, a meu ver, que ninguém gosta de admitir e costuma provocar reações hipocritamente escandalizadas quando alguém ousa dizer em voz alta é clássico: o funcionário sente que NÃO TEM O MÍNIMO VALOR PARA A UNIVERSIDADE. Que só os professores têm importância, voz e direito à vida inteligente. Essa percepção atravessa todos os níveis hierárquicos da carreira funcional, e é passada de mais velhos para mais jovens como a lição mais importante que o funcionário tem a aprender.

E agora me respondam: quantos funcionários estão se sentindo valorizados e positivamente estimulados pelo tratamento dado aos aposentados?

1 comentários:

  1. Já ouvi de colegas de trabalho, não docentes, esta máxima, "os professores são mais importantes que os bibliotecários!" rsrsrsrs. Gostaria de salientar e parabenizar os professores, pelo status que conseguiram ter entre os funcionários USP, docentes, técnicos, etc.... Por conseguirem maior peso em votações, por conseguirem se firmar como profissional mais importante que todos os demais! Sinceramente, não me agrada esse pensamento de ser mais ou menos importante de acordo com o currículo ou diploma!!! Penso que somos simplesmente pessoas desempenhando a função que lhe cabe. Gostaria muito que ao se falar de "renovação do quadro de funcionários" se falasse com igual veemência em renovação de cargos, e que quando se discutissea progressão de carreira, também fosse discutida a regressão de carreira. Lamentável que depois de certas ações administrativas ao longo de anos e até década, nada aconteça àqueles que, porventura se analise e comprove, pioraram o que já existia! E apesar de todos sermos capazes de reações em contrário, o maior peso de sustentanção do sistema hoje, infelizmente, é dos professores! Apesar de saber após as últimas, que nosso emprego pode estar por um fio, ainda me resta o mínimo de consciência crítica em dizer: isto não está certo. Durante um tempo eu ouvi falas no sentido de professores administrarem bibliotecas, administradores de empresas administrarem bibliotecas, e isso já gerava polêmica em sala de aula...seguindo o raciocínio, talvez se a USP fosse administrada por um administrador menos famoso!, ou será que ela estaria bem sendo administrada por quem entende e tem experiência em "direitos humanos"???, é cômico, rsrsrsrs. E o que mais dói: o contínuo sumiço da democracia por este Brasil a fora...inclua-se cidade universitária também!

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