domingo, 16 de janeiro de 2011

Dias de academia

Todos os dias, ou quase, acordo tentando esganar o despertador entre 5h15 e 5h40 da madrugada para “puxar ferro” na academia mais próxima de casa que eu consigo pagar. Será que esses lugares se chamam “academias” porque centro de tortura não é um nome muito comercial?

Tudo começou há uns 10 anos quando percebi que bibliotecárias quarentonas que passam o dia com o focinho enfiado na tela do computador inevitavelmente acabam evoluindo para bibliotecárias cinquentonas gordas. E cheias de dores nas costas e pelancas nos braços. E diabéticas, talvez. Feita a constatação decidi, bibliotecária quarentona amiga de doces, vinho, cerveja e saias curtas, que deveria começar a me exercitar. Se quisesse continuar a usar saias acima do joelho até os 55, pelo menos, não havia alternativa.

Hoje sou uma bibliotecária cinquentona musculosa, um tanto acima do peso, mas saudável, com pernas melhores do que a cara.

Fazer exercício não é tão ruim quanto acordar cedo e aturar as conversas, por assim dizer, acadêmicas. Trogloditas fazendo piadinhas homofóbicas uns com os outros, em meio a grunhidos e risadas forçadas. Por que será que os ditos machões ficam tão excitados com suas próprias frescuras? Moço negro, absolutamente lindo mas de cabeça raspada, definindo-se como um “moreninho” e ridicularizando o totalmente normal cabelo crespo da jornalista negra da TV. Nesse dia não me contive e, contra todos os meus hábitos entrei na conversa, querendo saber o que havia de errado com o cabelo da moça. Não obtive resposta inteligível, acho que ele se lembrou que homem não presta atenção em penteado e maquiagem... Madame na esteira indignada com o bolsa-família, porque “essa gente” não precisa trabalhar, o governo dá dinheiro! Mais ou menos o que ela paga por mês para fingir que faz exercício e continuar gorda.

Os comentários de ordem política são todos desse calibre, repetições quase literais do que ouviram na Globo ou leram na Veja. Tudo muito banal, clichês rasos de direita, preconceito puro e simples. Juntando meu mau humor matinal com minha baixa tolerância à estupidez, prefiro manter a boca calada para evitar conflitos. Mas não evito os aborrecimentos, porque ouvidos não são tão fáceis de fechar quanto bocas.

Ultimamente tenho relaxado um pouquinho. Depois de tantos anos encontrando as mesmas pessoas quase todos os dias, começa a ficar difícil manter distância absoluta. Um dia desses, pouco antes da tragédia total no Rio de Janeiro, uma coleguinha se aventurou a me dirigir a palavra. Diante das imagens das ruas de São Paulo transformadas em rios, atribuiu o problema das enchentes aos nordestinos que vem morar nas áreas de risco dessa nossa preciosa cidade. Como o comentário foi endereçado aos meus pobres ouvidos, tive que responder. Menos asperamente do que gostaria, mas talvez com mais veemência do que seria de se esperar de uma frequentadora do local. Estive a ponto de começar um pequeno discurso, mas, por sorte, alguém interrompeu a conversa. Temo que relaxar um pouquinho não tenha sido uma boa ideia.

Por que tanto preconceito? Por que tanta falta de informação?

E eu, por que tive que baixar a guarda? Por que não continuei usando minha camiseta do MST, comprada especialmente para ir à academia? Por onde diabos anda minha camiseta do MST?

5 comentários:

  1. Faça como eu: contra bate-estaca ou gente falando "tem que matar esses vagabundo do morro tudo", fones de ouvido. Prefiro mesmo ficar surda.

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  2. Aliás, correm por aí os boatos de corte de bandejão para funcionários que correm por aqui, em Sandwich?

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  3. Triste mesmo Marina! Também não sou muito boa de ouvir calada não! Engulo aqui e ali e uma bela hora, lá se vai as palavrinhas rolando aos ouvidos alheios! As vezes penso que o preconceito tem um poder de destruição a longo prazo que pouquíssimas pessoas conseguem perceber. Ele é o que causa agressões gratuitas na Paulista aos olhos atentos de uma câmera e do transeunte do momento. Mas ele é mais, muito mais. Fruto, penso eu, do meio social em que seu "hospedeiro" vive, ele começa na família, alimenta-se de uma sociedade extremamente hipócrita, e cresce no consumismo e nas mordomias. Assim, ele não morre nunca, ele brota e se multiplica! Mas não creio que o melhor remédio seja se calar não, vc. está certa em demonstrar suas opiniões sempre que "possível", simplesmente pedir aos céus que preconceituosos mudem de opinião ou fingir e tentar não ouvir, não sei se é a melhor saída. Temos que falar, temos que discutir, temos fazer debate nacional, temos que chegar lá no grupo de Brasília, temos que acima de tudo, fazer com que estas pessoas sintam vergonha, não dos Nordestinos, tão brasileiros quanto, não dos homossexuais, que são simplesmente pessoas iguais as outras, mas sintam vergonha de si mesmas pelo que pensam! Desculpe-me o comentário que já vai enveredando para o discurso...mas apoio seu diálogo na academia!

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  4. Acredito no diálogo, no debate e, principalmente, na educação para combater o preconceito e o obscurantismo. Mas, infelizmente, não tenho a paciência e a humildade necessárias para esse exercício. Acabo assustando as pessoas com minha agressividade. Devia ter nascido cão de guarda!

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  5. Marina, seu blog é uma delícia, muito melhor que os cronistas hipócritas dos jornais!

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