“É o trabalho da minha vida” declara em tom quase solene o professor, erguendo as mãos em direção às estantes empoeiradas. As duas bibliotecárias trocam um rápido olhar com o rabo dos olhos, calejadas por anos e anos de avaliação de doações e trabalhos de vidas. Por alto são uns 300 livros, fora as pastas com recortes, revistas e fotografias, num porão úmido cheirando pungentemente a bolor e abandono.
A mais jovem, com luvinhas brancas nas mãos, manuseia com cuidado um outro volume retirado das prateleiras. Enquanto o professor está distraído atendendo o telefone, trocam rápidas impressões. A maioria dos livros não se enquadra no perfil do acervo da biblioteca, muitos não parecem ter relação com as pesquisas do professor. Os livros mais interessantes, bibliografia básica da graduação, ou estão em péssimo estado ou a biblioteca já tem edições mais recentes.
“Reluto muito em me desfazer dessa coleção, que é preciosa”. O professor desligou o telefone e se colocou entre as bibliotecárias e uma caixa de papelão transbordante de papeis amarelados. “Só faço isso porque sei que vocês vão cuidar bem do material. Vocês pretendem manter todos os livros juntos, numa sala separada do restante da biblioteca?” A bibliotecária das luvinhas amarra discretamente a fisionomia, mas o professor não chega a notar a careta, porque a diretora da biblioteca, escancarando seu melhor sorriso de admiração foi logo explicando que as doações dos professores recebem o melhor dos tratamentos, e que talvez nosso espaço atual não comporte uma sala à parte, mas todos os livros terão um carimbo e uma etiqueta especial com o nome do doador e que a coleção poderá ser reunida virtualmente no site da biblioteca. A ligeira decepção que começava a transparecer no rosto do docente se dilui um pouco ao ouvir as palavras site e virtualmente. Suas atenções se voltam para a bibliotecária das luvinhas, que nessa altura já está também de máscara, atacando uma caixa de fotografias cheirando a vinagre.
“Vocês são tão cuidadosas, nunca pensei em usar luvas para tocar no material”. A moça explica que as luvas às vezes são necessárias dá um suspiro. O professor inicia uma demorada explicação sobre a origem daquelas fotografias, lamentando não ter anotado os nomes das pessoas e monumentos desde o início. Mas quando percebeu que era importante esse registro, começou a escrever tudo no verso, explica com orgulho. Com caneta esferográfica. Outro suspiro escapa da máscara.
A mulher do professor entre na sala, simpática, trazendo o cafezinho. As bibliotecárias aproveitam a deixa para informar que precisam voltar para a biblioteca.
- E aí? - pergunta a diretora.
- E aí que ele deixou o trabalho da vida dele mofar e agora pretende que a gente dê o valor que ele, de fato, não parece ter dado.
- Credo, você é dura! Dá para aproveitar alguma coisa?
- Dá, mas acho que não dá para justificar o tempo que vamos levar selecionando, e os gastos com a encadernação dos livros que ainda não temos. Sai mais barato comprar tudo novo.
- E as fotos?
- As poucas que estão identificadas foram muito danificadas pela tinta da caneta. As demais, talvez nem ele consiga saber o que são.
- Bom, vou consultar a Comissão de Biblioteca, mas obviamente a doação não será aceita. Ainda mais que o professor brigou com todo mundo e não tem mais qualquer influência do Departamento. Viu como foi bom você ter trazido luvas e máscara? Com a sua alergia, você iria sufocar essa noite.
- E passar o resto da semana espirrando. E amanhã tenho outra coleção para ver! Morreu a avó da professora e ela precisa desocupar logo o apartamento para alugar. A história de sempre.
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Perfeita história do cotidiano bibliotecário!
ResponderExcluirMaravilha de texto! Sem comentários!
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