domingo, 13 de fevereiro de 2011

Indolência

O Professor Joel Dutra, diretor de Recursos Humanos da USP, deu uma entrevista à Rádio Bandeirantes no início de janeiro, explicando a demissão dos funcionários aposentados. Suas razões já foram bastante discutidas, não vou julgar aqui se é bonito ou não demitir pessoas para servir de exemplo, não sou boa administradora. Sou apenas uma bibliotecária velha e casmurra que pretende se aposentar só aos 70, se os colegas me não me botarem pra fora à pauladas.

Quero apenas comentar aquele trechinho da entrevista, já no final, no qual o prof. Dutra afirma que alguns funcionários se tornaram indolentes após a aposentadoria. Alguns, ele faz questão de frisar. Pode ser, só conheço algumas dessas pessoas e não sei nada do trabalho delas, mas, a experiência de 28 anos de USP, boa parte deles exercendo chefia, me diz que isso não é comum. Ninguém se torna indolente assim, de repente, porque se aposentou. Quem trabalha direito na USP o faz porque é sério por natureza, não por profissão. Esses supostos indolentes provavelmente já o eram há muito tempo e seguiram na mesma batida.Então como é que a USP aceita que um funcionário seja indolente por tanto tempo?

Já vi pessoas, e não foram poucas, que começaram bem na Universidade, trabalhando direito, animadas, com ambições intelectuais e vontade de colaborar. E depois de uns dois ou três anos, desistiram. Perceberam que, como os mecanismos de estímulo aos bons não funcionam e de desestímulos aos maus também não – às vezes até funcionam ao contrário – feitas as contas, o bom funcionário está sempre em desvantagem. O sistema trabalha a favor da indolência. Não é todo mundo que tem força moral ou consciência política suficientemente sólida para entender que se juntar aos indolentes ou aos malandros não é papel que se faça. Muitos simplesmente se entregam, ou vão embora.

Chefias incompetentes ou covardes permitem que um funcionário trabalhe por dois, enquanto o colega exerce seu sagrado direito à indolência debaixo dos narizes de todo mundo. E chefes, devo lembrar, muitas vezes são professores ou funcionários de formação acima da média. A indolência e o desânimo são problemas na Universidade, e não acredito que demitir esses aposentados, muitos dos quais eram bons funcionários, como o prof. Dutra admitiu no início da entrevista, seja a forma mais eficiente para combatê-los.

Mas, o que uma bibliotecária entende dessas coisas? Eu faria melhor se tentasse descobrir uma forma de impedir que funcionários indolentes, professores indiferentes e alunos apáticos transformem nossas bibliotecas em cemitérios.

Vida marvada, de Almirante (um hino à vagabundagem):

http://www.youtube.com/watch?v=FE7TZdPCZ5Q

A entrevista, se é que alguém não ouviu:

http://radiobandeirantes.com.br/conteudo.asp?PDT=25&ID=409601

3 comentários:

  1. É exatamente isso. E depois que detectei esse mecanismo, como me entregar a indolência não me faz bem, não há um dia em que não pense em dar o fora. Mas acho que a covardia é contagiosa.

    E, desculpa, acabei de jantar, prefiro não ouvir a entrevista.

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  2. Pelo andar da carruagem, a sua vontade de se aposentar pela expulsória (digo compulsória) vai se tornar um sonho distante.

    Essa desculpa do Joel foi a mais esfarrapada que já vi. Na verdade a política da atual gestão é diminuição do quadro funcional, e para isso se precaveu da maneira que os demitidos não encontrassem brecha jurídica para ingressarem para se readmitidos novamente.

    Isso é só o início e outras políticas virão e futuramente a privatização da Universidade será um processo iminente.

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  3. Quanto à privatização iminente e Readmissão, já houve readmissão por conta de ganho na justiça, em matéria de ontem, fala-se até em jurisprudência. Na FFLCH, houve readmissão, embora a mídia (que nesta lambança de 2011 está um pouquinho mais amena para com os funcionários ditos vagabundos por altas chefias) não deu notícia, espera-se, e é justo, que a funcionária receba os dias em que ficou afastada a contra gosto por suposta demissão "justa e sem brecha pra recorrer". Falta ainda umas duzentas e poucas justiças para serem feitas em readmissões. Cada dia me convenço de que as iminências acontecem porque simplesmente concordamos e não temos CORAGEM de dizer basta, vide resultados egípcios e adjacências. Quanto às chefias... rsrsrsr bem...seria "cômico" se não fosse "trágico"... Penso que em empresas pequenas chefias as vezes são patriarcais e familiares, em médias empresas, talvez sejam por "bajulação", em mega empresa é por competência comprovada se não ganha a rua, pois do contrário trará prejuízos, porém na USP...rsrsrs, chefes são simplesmente pessoas queridas! Salvo excessões, estão menos preocupados em tomar pé da situação e resolver indolências e sobrecarga de trabalho, pois têm que brilhar pra outras chefias de cima e fazer parecer que tudo vai às mil maravilhas em vosso reinado! E olha que o reinadao duuuuuura. Também concordo bastante que se entregar ou ser indolente está dentro de cada um, é caráter de berço. Ah! covardia contagia sim... tento me proteger com placebos amadores e caseiros rsrsrsrsr

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