sábado, 12 de fevereiro de 2011

Nosferatu

Ele já teve muito poder. Foi temido, odiado e adulado. Hoje, com os tradicionais aliados políticos afastados do governo e tornados obsoletos, pouco lhe resta a tramar. Não pisa mais em seu antigo Departamento, território hoje controlado pelos inimigos que perseguiu e infernizou por mais de uma década.

Ainda frequenta ocasionalmente a biblioteca em busca de livros que doou, como faz questão de explicar, e de alguns álbuns de fotografias e recortes de um artista falecido, seu grande amigo, que precisa consultar para a biografia que está escrevendo. A bibliotecária se diverte ao perceber que o velho ex-sátiro bajula a ela às demais funcionárias antigas, de “sua época”, para garantir acesso aos documentos cuja consulta é livre e aberta a qualquer pesquisador. Velhos hábitos, talvez, lembranças de tempos mais sedutores nos quais sua gentileza e boa conversa enganavam os incautos. Ou talvez ele espere conseguir uma vantagem extra, ou manter ainda algum tipo de privilégio que, obviamente, será gentilmente negado. Ou talvez seja tudo o que lhe resta: adular funcionárias para receber em troca os sorrisos e a admiração aos quais se acostumou, fingidos mais nem por isso menos satisfatórios.

Nosferatu, é como a sorridente bibliotecária o chama quando ele vira as costas, apelido que vai aos poucos se espalhando pela equipe. “Cuidado para não chamá-lo assim”, avisa aos funcionários jovens, “esse não é o nome dele”.

O estagiário de 19 anos acha graça. Menino de família pobre, inteligência acima da média e visão mais ou menos otimista da vida, não enxerga os punhais por trás dos sorrisos. No fundo simpatiza um pouco com o professor que nunca lhe fez mal algum, e que lembra vagamente seu avô. Se o velho operário usasse camisas pólo importadas e unhas manicuradas, seria muito parecido mesmo.

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