sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Um homem gentil

Aquele professor era um dos usuários mais queridos do pessoal da biblioteca. Sempre gentil e um pouco atrapalhado, jamais idiota e geneticamente incapaz de maltratar pessoas, era cuidadosamente mimado por todos os funcionários. Um dia uma das estagiárias mais jovens criou coragem e pediu sua ajuda com uns textos que não estava conseguindo entender. O professor deu uma espécie de aula relâmpago sobre o autor, com aquele prazer de ensinar que distingue os melhores na sua profissão. Todos pararam para acompanhar as explicações, todos riram quando o professor percebeu que era o centro das atenções e ficou meio sem graça.

Depois da aposentadoria ele sumiu por uns tempos. Um dia voltou, bastante mudado. Continuava simpático, mas parecia abatido e triste. Colocaram-no sentadinho num lugar confortável lá no processamento, e enquanto uma das meninas procurava o material que ele pediu, ficou batendo papo com a bibliotecária que havia sido sua aluna. Estava doente. Nada fatal, mas grave e difícil de tratar. Remédios caríssimos, tratamento em hospital público. Bastante magoado, contou que os funcionários do hospital não tinham paciência com os doentes, chegaram a maltratá-lo mais de uma vez.

Localizado o material, alguém o acompanhou até o taxi, com a desculpa de conversar mais um pouquinho. Preocupação, na verdade.

A conversa deixou a bibliotecária com uma bola amarga no fundo da garganta pelo resto do dia. Se pudesse, meteria a mão na cara de quem tinha maltratado o professor. Como podem fazer isso com alguém que está numa situação tão frágil, e que é tão gentil? Por isso mesmo, talvez. Se ele fosse arrogante e agressivo, a história seria diferente. E pela primeira vez ela experimentou um sentimento estranho, que parece afetar alguns funcionários mais envolvidos com a Universidade. Não era apenas compaixão ou solidariedade, era também uma espécie de irritação contra quem tinha se metido com assuntos dela. O professor bonzinho, assim como os livros da biblioteca e as árvores do jardim, eram um pouco “coisas” dela. E depois de tantos anos cuidando bem do professor, como esse pessoal ousava agir dessa forma?

Um pouco surpresa com a própria reação, prometeu a si mesma dar umas dicas de como lidar com gente grossa ao professor, talvez ele não estivesse acostumado. Mas ele nunca mais voltou. Um rapaz, talvez o filho, devolveu o material emprestado e ela nunca mais o viu.

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