segunda-feira, 21 de março de 2011

Lira dos 30 anos

O Sistema Integrado de Bibliotecas da USP (SIBi) está fazendo 30 anos. Temos mais ou menos o mesmo tempo de USP e de luta, já que o SIBi foi criado quando eu já trabalhava na antiga Biblioteca Central, que veio a se transformar em seu Departamento Técnico.

Saí de lá alguns meses depois, para trabalhar na Biblioteca da ECA e organizar seu acervo de filmes, que aprendi a projetar, enrolar, desenrolar, conservar, entender e indexar. Foi divertido, assim como montar o acervo de vídeos, organizar a coleção de imagens e aprender a catalogar discos e partituras depois de velha. De lá para cá, toda a minha carreira – se é que se pode falar de “carreira” na USP – tem sido uma espécie de batalha cheia de interrupções e retomadas para tirar o documento audiovisual do gueto reservado aos “anexos de” ou ilustrações de coisas consideradas mais importantes. Divertido também, mas estou perdendo.

O trabalho pioneiro e inovador da Biblioteca da ECA com documentos audiovisuais e outros materiais que bibliotecários chamam de “especiais” porque não são os normais e confortáveis textos escritos - um trabalho iniciado bem antes de existir um SIBi - sempre foi curiosamente ignorado por quem toma as decisões sistêmicas. Não é prioridade e cria problemas horríveis, porque ousa questionar uma ou outra norma infalível escrita em códigos sagrados. A compreensão do universo do audiovisual poderia ter aberto uma porta de entrada mais livre e interessante para o universo digital, mas suspeito que a oportunidade já tenha passado.

Na minha visão, o novo, o experimental e até mesmo o marginal, ao entrar para um sistema, renova e valoriza esse sistema. Mas o pensamento tradicional em nossa área só aceita o novo se for enquadrado, sem discussão, aos procedimentos de sempre, como se bibliotecários existissem apenas para seguir regras. Mal comparando, modo de pensar que lembra muito a lei secreta e jamais escrita, mas sempre presente na rotina da USP, de que o funcionário está aqui para cumprir ordens.

O primeiro evento comemorativo do 30º aniversário do SIBi é o fórum de debates “As bibliotecas da USP e ... as novas mídias”. Implicante que sou, não gostei muito do tema. Para mim, expressões como “novas mídias” soam como conversa velha. A mídia é nova até quando? Se for até que os padrões dominantes de organização da informação a entendam e expliquem minimamente, então os daguerreótipos ainda são mídia nova. E a mídia é nova para quem? As pessoas parecem pensar que o novo é o digital, que nossos jovens alunos talvez não considerem mais tão novidade assim.

Sinto alguma decepção com o fato de que os bibliotecários da USP estarão presentes apenas como plateia, não como debatedores, num evento que comemora 30 anos do SIBi e cuja tema são nossas bibliotecas. Deve ser uma nova modalidade de terceirização. E por que não pensei nisso antes? Quando criança odiava fazer aniversário, por vergonha de ser o centro das atenções, mas nunca me ocorreu convidar alguém para apagar as velinhas.

Minha velha amiga Formiguinha Eulália, que andava meio sumida, aproveita para ironizar: “trabalho de formiguinha só tem valor para tamanduás, bom é ser cigarra”.

0 comentários:

Postar um comentário