terça-feira, 29 de março de 2011

Praça da Sé, flash-back

Quando estudantes e dependentes do bandejão para questões alimentícias, minhas amigas e eu evitávamos a todo custo sentar à mesma mesa com meninos da Poli. Procurávamos almoçar em grupos, para dificultar um pouco a convivência indesejável. Botem aí um pouco da clássica má vontade das meninas de humanas, que na época só aturavam intelectuais de esquerda que sabiam quem era Godard, mas a conversa era, para nós, tão insuportável que a comida chegava a fazer mal. E a culpa não era só dos cozinheiros, nossos bravos companheiros da COSEAS. O papo era mais letal do que o bife.

Nesses anos todos cheguei a conhecer politécnicos bem sofisticados, e até juntei meus trapinhos com um bonito rapaz formado em engenharia, hoje um charmoso bibliotecário cinquentão. Apaguei da memória aqueles almoços penosos até a semana passada, quando estacionei minha mochila, no Praça da Sé lotado, ao lado das mochilas de um grupinho de garotos da Poli. Foi uma espécie de volta ao passado sem recuperar o frescor da pele e a rigidez da bunda, numa interminável viagem de quase 40 minutos sem outra opção a não ser ouvir a conversa deles.

Falavam mal dos professores, o que não chega a ser um problema, mas o faziam em termos que me incomodaram pela crueldade, preconceito e futilidade. Os professores, todos estrangeiros, eram chamados pelas suas nacionalidades – o russo, o francês etc – e ridicularizados por seus sotaques e roupas. Roupas? Sim, roupas. Os meninos, todos normalmente mal vestidos e andando de ônibus, achavam “um absurdo” um professor dar aula de bermudas ou sandálias. Confesso que hoje, aos 50 anos, até concordo que servidores públicos devam tomar cuidado ao se vestirem, para não dar impressão de relaxo. Mas, aos 18 anos, jamais me passaria pela cabeça sequer prestar atenção nas roupas dos professores ou de qualquer pessoa. Outro “absurdo”, que provocou as mais frenéticas gargalhadas nos meus companheiros de viagem: um professor “sem noção” tinha uma pasta de receitas no laptop, bem ao lado dos conteúdos da disciplina. Chocante!

E o absurdo dos absurdos: um desses estrangeiros mal vestidos OUSOU mandar uma das coisas fofas da mamãe desligar o celular na sala de aula, cometendo assim um verdadeiro crime de lesa-adolescência. Um deles objetou que o colega deveria ter enfrentado o professor, mas os demais alertaram que não se deve fazer isso, porque você vai ficar marcado, e nunca se sabe quando você vai precisar chorar uns pontinhos na nota com esse mesmo cara. As crianças acham que atrapalhar a aula é um direito a ser defendido, mas também acreditam que não se deve fazê-lo, para não correr riscos de perder pontos na competição acadêmica.

Quando cansaram de falar dos professores eles passaram ao que acham verdadeiramente fascinante ou “foda”, como eles diziam: o trote, esse incrível rito de passagem que leva um indivíduo a aceitar tomar um copo de cachaça, entrar num barril e ser rolado rampa abaixo. Muito “foda”, mas seria melhor se fosse numa escada, disse a menina do grupo, criaturinha bonita e implacável. Os meninos foram contra.

Tão ruim quanto o conteúdo da conversa era a forma. Frases repetidas várias vezes, a insubstituível expressão “tipo”, cuspida praticamente entre cada palavra, como numa moderna língua do P. Se um deles não entendia bem alguma afirmação, ou se discordava um pouco, o outro simplesmente repetia a frase em tom mais alto e com mais “tipos”. Nada de desenvolver melhor o raciocínio ou arriscar um argumento. O discurso deles simplesmente não se desenvolvia.

Mas não há viagem que dure para sempre e logo desci do ônibus para enfrentar a tempestade que se abatia sobre a cidade e a enxurrada, que me pareceram quase agradáveis.

Não quero ofender os politécnicos, nem uma eventual namorada ou mãe de politécnico que passe por este blog. Esses meninos eram da Poli, mas poderiam ser de qualquer outra escola onde a competição é tão intensa que leva a distorções bizarras de pensamento e onde a boçalidade do trote é parte da cultura. De qualquer forma, jovens de 18 anos ainda podem mudar, como eu, que na adolescência era “Carrie, a estranha”, na juventude comia no bandejão e hoje me tornei uma bibliotecária rabugenta que anda de Praça da Sé lotado.

3 comentários:

  1. Como engenheiro e ex-estudante de engenharia até entendo o que passa na cabeça dessa molecada.

    Estudante de engenharia é meio carente, precisa se auto afirmar. Meninos crescem mais devagar que as meninas, a convivência com meninas os tornaria menos infantis, mas nos cursos de engenharia elas "ainda" são poucas.

    Fiquei meio horrorizado com a lista de provas do Integrausp (uma espécie de gincana entre alunos da Poli) entre as provas havia coisas imbecis como soltar porcos dentro de um shopping, um grupo de alunos realmente o fez, e foram presos e multados por uma entidade de defesa animal.

    O que é bom e que daqui a poucos anos essas crianças crescem e por incrível que pareça viram cidadãos de bem. Tive vários estagiários aqui na USP, todos eram assim e hoje dão orgulho. É só uma fase... mas que é chato ficar do lado dessas crianças no ônibus é, é sim... rs...

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  2. Eu sei, Rogério, as "crianças" são as menos culpadas e concordo com você, a maioria delas vai virar gente grande decente. O problema são as escolas e seus esquemas malucos e, principalmente, o desumano transporte coletivo que temos em São Paulo. Se a viagem fosse confortável e rápida, eu seria menos rabugenta!

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  3. Oi Marina, parece que parte desses absurdos que você registra tão bem em seu texto tem a ver com um comportamento imaturo de jovens que entram na universidade mas continuam agindo como adolescentes no ensino médio.

    Não há um dia em que eles não estejam em bandos no bandejão furando fila ou falando alto o suficiente para que todo mundo à sua volta não tenha como não ouvir sua conversa 'super' interessante, dentre outras atitudes que me fazem pensar duas coisinhas: 1) precisamos educar melhor nossos jovens e 2) estou ficando velha e rabugenta...

    abraços

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