segunda-feira, 11 de abril de 2011

No tempo das fichas

Comecei a trabalhar no tempo das fichas. Que horror? Sim, mas o pior não é isso, o pior que comecei a menstruar no tempo em que os absorventes higiênicos ainda não eram aderentes às nossas calcinhas. Horrível, mas calma, esse não é o assunto principal deste texto.

Era dureza o tempo das fichas, e não apenas por causa da ditadura militar. A barra já começava a pesar no curso de Biblioteconomia, quando precisávamos datilografar com nossos próprios dedinhos um fichário pequeno, mas completo, como trabalho final da disciplina de Catalogação. E vocês, alunos de hoje, ainda reclamam. Fazer aquele trabalho foi um dos momentos mais deprimentes da minha vida de estudante e, querem saber? Não serviu para nada, só aprendi a catalogar no trabalho, com as colegas.

No tempo das fichinhas catalográficas – o nome era esse – quando a máquina de escrever quebrava o trabalho atrasava por uns dois meses. E quando a máquina desdobradora quebrava, atrasava por uns oito meses, porque era mais difícil de consertar. Desdobradora, como assim, perguntam as crianças. As fichinhas nasciam dobradas e precisava de uma máquina para desdobrá-las? Não, desdobrar quer dizer fazer várias fichas com o “corpo” igual, só mudando os “cabeçalhos” e tinha uma máquina que fazia isso quando não estava quebrada. Mais ou menos assim, não sou tão velha assim que me lembre de todos os detalhes.

Mas o tempo das fichas também tinha lá suas vantagens. Duvidam? Vamos lá.

Não dava para fazer muita coisa, portanto não havia muitas expectativas. Era aquilo e acabou: fichas de autor, título e assunto para localizar um objeto na estante. Ninguém esperava que a gente datilografasse uma cópia do livro e grudasse na fichinha. Não havia um universo inteiro de serviços a desenvolver, tecnicamente possíveis, mas eternamente batendo contra o muro da incompreensão, da falta de vontade política, do apego ao passado, da precariedade estrutural e outros males.

Fazer um levantamento por assunto era engraçado. A gente tirava todas as fichas do assunto em questão e xerocava, ou removia a gaveta e botava o próprio usuário sentadinho à mesa para fazer seu “levantamento”. Se vire aí e não me bagunce o fichário! Horrível, mas a maioria das pessoas entendia o conceito de assunto e de procurar por assunto. Se a gente caprichasse na indexação, isso era até notado e valorizado pelos usuários mais espertos. Hoje as pessoas acham que o software buscou no texto do documento, mesmo que o dito cujo não esteja, curiosamente, disponível online.

Se a gente contratasse um bibliotecário pateta que não dominasse a tecnologia das fichas, não era grave. Dava para ensinar o infeliz rapidamente e aí ele não incomodava mais por uns dez anos. Hoje, se um bibliotecário excluído digital passa no concurso – e isso ocorre – quando a gente está quase conseguindo que ele aprenda o mínimo para trabalhar, pronto, já tem software novo para aprender. Há quem desista no meio do caminho, tanto de aprender quanto de ensinar.

No tempo das fichinhas a concorrência era mínima. As pessoas compravam livros ou iam às bibliotecas. E não havia mega-livrarias lindamente decoradas, com café, sofás e uma divisão por assuntos gerais copiada das bibliotecas. Pouca gente comenta, mas as livrarias bacanas apareceram no Brasil depois que surgiram as bibliotecas bacanas, mas elas nos passaram a perna porque são mais espertas.

As pessoas reclamavam dos fichários, perguntavam quando a gente ia “por tudo no computador”, mas era da boca pra fora. Todos amavam os fichários, como descobri quando tentamos aposentar o nosso lá na Biblioteca da ECA e a Comissão de Biblioteca não permitiu, com os argumentos de sempre: e se faltar luz? E os usuários que não usam computador? E isso com o apoio até do representante discente, aluno de Biblioteconomia.

Uma das causas do apego aos fichários é que ninguém precisava ter vergonha de não saber usar um. Era “tecnologia” restrita ao universo das bibliotecas. Já o computador, toda pessoa inteligente e moderna precisa saber usar. Admitir que não sabe e pedir ajuda a um reles funcionário de biblioteca é um vexame que alguns intelectuais preferem evitar.

No tempo das fichas, a gente dependia apenas dos próprios talentos e sempre escassos recursos para fazer um fichário que funcionasse. As bibliotecas mais caprichosas chegavam ao requinte de plastificar as fichinhas, um luxo. Hoje temos bases de dados, softwares poderosos, conteúdos online e catalogação cooperativa, mas estamos sempre dependendo de pessoas que não conhecem nossos usuários, que nem sempre são sensíveis aos nossos problemas e não se mostram dispostas o ouvir o que temos a dizer. Que estão preocupadas demais com regras quase obsoletas criadas no tempo das fichinhas.

Então antigamente era melhor?! Não, não era. Mas nossos tempos modernos seriam melhores e mais modernos se a gente conseguisse se livrar não apenas das fichinhas datilografadas e desdobradas, mas do pensamento-fichinha ainda tão popular entre nós.

4 comentários:

  1. Esse texto me fez lembrar que na semana passada fui à uma biblioteca pública muito antiga lá no bairro de Pirituba, e para minha surpresa não haviam terminais para consulta na base de dados, mas sim três enormes fichários atualizados! Me senti como se estivesse em outra época, foi bastante diferente ver que ali as fichas são utilizadas com muitas desenvoltura pelos jovens usuários, tão acostumados às facilidades das máquinas. E na mesma hora, de frente para aquelas milhares de fichas, me peguei viajando em vários pensamentos, como no trabalho para se confeccionar e organizar aquela informação toda, ou se algum usuário doido resolvesse abrir uma gavetinha daquelas e jogar as fichinhas como cartinhas em um sorteio...enfim...viagens à parte, vi que esse tipo de atividade (de confeccionar e organizar fichas) ainda é fundamental em algumas instituições e foi muito bom para sair um pouco do mundo das facilidades tecnológicas e valorizar sim as fichinhas, que ainda possuem papel principal em muitas bibliotecas espalhadas por aí.

    Muito bacana o texto Marina ;-)

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  2. Marina,

    Meu Trabalho de Conclusão de Curso fala sobre a evolução dos sistemas: da ficha catalográfica aos bancos de dados informatizados. Necessito de informações desta época antiga, como quais foram os softwares criados para a impressão das fichas e de como era esse processo da "maquina desdobradora de fichas".

    Há alguma sugestão de referências bibliográfica sobre esse assunto? Ficaria muito agradecido se puder me ajudar. Obrigado!

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  3. Helton:
    Vou ver se temos alguma coisa na Biblioteca da ECA. Aguarde um pouquinho.

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  4. As gavetas dos fichários, Juliana, tinham uma vareta com a qual a gente empalava as pobres das fichinhas, para não ter risco de sorteios. Era um trabalho do cão, porque não pense você que os buraquinhos ficavam alinhados... Mas se a gente não fazia isso, o pessoal simplesmente pegava a ficha e saia procurando o livro correspondente pela biblioteca. Uma alegria!

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