sexta-feira, 1 de abril de 2011

O livro com marcas de dedos

Por um momento pensei que o livro eletrônico poderia ser a solução para minha angústia ao chegar ao final de um livro, a fórmula quase mágica para ter vários livros sempre à mão e nunca mais correr o risco de ficar sem leitura de repente, finalmente o meu livro sem fim. Escrevi sobre isso há alguns meses.

Mas antes que conseguisse decidir se queria um leitor de e-books, se esperava um pouco para comprar um iPad ou se comprava uma bicicleta, “ganhei” o iPad. Estava em oferta, porque vai sair ou já saiu a segunda edição. Engraçado.

Já faz uns 20 dias que estou atracada com o presente, tentando estabelecer algum nível entendimento. Gosto de computadores, mas é que sou velha e a coisinha parece mais um brinquedo do que um computador. Na verdade, lembra muito uma daquelas tábuas de cozinha feitas de vidro inquebrável, sucessora das antigas e nojentas de madeira.

Primeiro choque: tem que botar o dedo na tela. Ai, meus paradigmas. E a tela fica com marca de dedo! Achei que ia ficar maluca, passando o paninho a cada toque, mas acostumei. Só limpo quando vou guardá-lo, sem dar nenhum comando para desligar, porque a coisinha parece que não desliga. Engraçado ...

Bem, mas vamos ao que interessa, os livros. Primeiro tem que baixar um programa. Como se faz? Onde digito? Cadê o enter? Tudo se resolve após alguns tropeços, mas para baixar o programa gratuito preciso botar o número do cartão de crédito. Muito engraçado!

Programa baixado, vamos lá ver as centenas de milhares de livros gratuitos que posso baixar. Um monte, realmente. Duas horas e meia de digitais na tela depois, pesco um que vagamente me interessa: Moby Dick. Bem, vou ler Moby Dick no original, que bacana. E será que dá para baixar do Gutenberg? Derrubo um Fernando Pessoa mais rápido do que botaria a senha do cartão numa livraria. Beleza, mas onde encontro os cobiçados itens da minha gigantesca lista de livros a ler? Nem precisa ser de graça, vou acabar comprando todos mesmo, cedo ou tarde. Claro, vocês já sabem, não encontro nada. Tem de tudo, mas não necessariamente o que a gente quer. E existe uma quantidade alucinante de lixo. E aqueles grandes e enormes clássicos que gente velha já leu ou não tem a mínima intenção de ler.

Mas pelo menos já tenho duas boas opções de leitura para me fazer companhia no ônibus. Na mesma tabuinha de vidro. A tela muda de orientação, não é lindo? Sim, mas como ela faz isso a cada solavanco do ônibus, fico tonta e desisto. Dá para travar, avisa no dia seguinte a amiga mocinha. Claro, mas precisa procurar o manual no site, descobrir que as instruções estão erradas, procurar ajuda na internet do povo que já descobriu como se faz e xingou bastante o fabricante do brinquedo. Pronto, já sei como fazer o livro que estou lendo ficar paradinho. Ou quase, porque quando o ônibus passa por alguma rede sem fio disponível, pula uma telinha quadrada bem no meio da página, avisando do achado. E às vezes as páginas viram sozinhas, mas isso o livro impresso também faz, quando venta.

Aos poucos vou me animando. Já descobri como fazer anotações e como copiar trechos para o editor de textos. Mas parece que não dá para deixar o livro e editor de textos abertos ao mesmo tempo, como a gente faz com o papel, a caneta e o livro impresso. Vantagens irrefutáveis: a tela é mais luminosa do que o papel e dá para aumentar as letras, ótimas notícias para os ceguetas. E, principalmente, ficou mais fácil ler vários livros ao mesmo tempo. Enjoei do Moby Dick e do Pessoa? Pulo para o Arthur Machel. Vou ler mais do que sempre li? Duvido, meu tempo livre não aumentou.

O que mais me irrita, além das dificuldades em aprender como usar essa tecnologia tão intuitiva e amigável, é a obsessão em imitar o universo já familiar dos livros impressos. Por que, se não é a mesma coisa? A interface do programa que armazena os e-books é o desenho de uma estante de madeira. Os livrinhos ficam lá bonitinhos, só falta a poeira. Para quê? Só para ficar ridículo? E o pior é que dá a impressão de que vai faltar espaço e que vou precisar comprar uma atualização do programa que venha com armários deslizantes de aço, que vai custar muito caro.

3 comentários:

  1. Armários deslizantes de aço foi ótima! Também não entendo essa mania de imitar o papel. Aquelas revistas online que fazem você "arrastar" as páginas com o mouse me irritam profundamente :)

    Ah, sim, ainda não experimentei um tablet, mas este post fala de alguns problemas que imagino que teria com eles... Uma "tabuinha de vidro" não me parece muito prática.

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  2. É aquela história: uma coisa eletrônica tem que ser interessante por suas próprias vantagens, não por imitar direitinho as coisas impressas. Para tem "a sensação de um livro" eu leio um livro, ora bolas.

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  3. Você me fez lembrar uma crônica que contava de uma criança, que quando viu uma máquina de escrever, achou o máximo, "é um teclado que já vem com a impressora..."

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