Como sempre acontece com esse tipo de líder, Elle foi levado ao poder nos ombros de uma legião de entusiastas do discurso da modernidade e da renovação. Homens e mulheres fremiam de excitação ao pronunciarem o nome Daquelle que iria, entre outras façanhas, por fim às greves e dar um jeito “nessa gente”.
Repulsivamente feio, grosseiro e autoritário, exercia, apesar disso ou talvez por isso mesmo, considerável fascínio sobre seus seguidores. Mulheres frustradas suspiravam com a māo no peito, louvando a inteligência do Sapo, homens fracos rosnavam que o Sapo sim, tinha pulso. Com o Sapo não haveria mais greves, nunca mais, nunca mais! Também não haveria mais burocracia, porque o Sapo fazia o que precisava ser feito, da forma que mais lhe interessava e rápido, sem ligar para regras, procedimentos e tudo o mais que cruzasse seu caminho. O Sapo fazia, acontecia, queimava e desmontava com a eficiência de um tufão.
Integravam o séquito do batráquio alguns funcionários ressentidos, de competência questionável, que o amavam tanto que faziam fila à porta de sua sala para lhe contar o que se passava em seus domínios. Quem andava falando mal Delle, quem tinha sido visto perto do sindicato, quem estava com cara de andar pensando demais. O Sapo gostava de gente assim, largada dos estudos, como ele dizia, e censurava quem tinha o desplante de contratar funcionários que estavam estudando ou queriam voltar a estudar, gente topetuda e potencialmente encrenqueira. Como o pessoal da biblioteca, por exemplo.
O Sapo gostava de bibliotecas, e queria deixar a dos seus domínios do jeitinho que Elle queria, com o acervo que ele achava bacana e sem bibliotecários com idéias próprias. Não demorou para a biblioteca se povoar de girinos com formação deficiente mas convenientemente despolitizados, prontos a coaxar conforme a música e a idolatrar seu mentor.
E sim, Elle precisava disso. Uma das funcionárias “com estudo” da biblioteca observou que simplesmente obedecê-lo não era suficiente. Era preciso aplaudir suas ideias e mostrar completa submissão não apenas à sua autoridade formal, mas à sua personalidade. Entenderam porque Elle não gostava desse pessoal metido a esperto?
Nem sempre, porém, seu método de persuasão era o fascínio. Uma respeitável professora de quase setenta anos confessou que tinha medo de contrariá-lo porque ele gritava muito quando isso acontecia, até durante reuniões formais.
Obviamente o batráquio tinha suas ambições. Queria mais. Queria reinar em instâncias mais altas e depois virar retrato. E ficar lá naquela parede chique, pintado à óleo, ao lado dos retratos precedentes. Mas isso não aconteceu. As pessoas sérias que inicialmente o haviam apoiado foram pulando fora e seu reinado terminou melancolicamente, em meio a rumores de uso indevido de verbas públicas. Foi reinar em outro brejo, menos prestigioso do que aquele com o qual sonhara.
Foi visto um dia desses, passeando com a esposa na Teodoro Sampaio e olhando com desesperada cobiça para as coxas dos rapazes de bermudas que passavam. O Sapo continua vivendo sua triste mentira.
Sapos da mesma estirpe surgem todos os dias, cobrem-se de glória por uns poucos meses, depois chafurdam no fracasso e acabam no mais merecido esquecimento. É só esperar.
sábado, 23 de abril de 2011
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Estamos esperando. Ansiosamente.
ResponderExcluirDaqui a pouco o sapo volta a sua relês insignificância.
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