terça-feira, 19 de abril de 2011

Terceirização

Para muitos que estudam ou trabalham na USP, terceirização é uma forma de economizar recursos e melhorar a qualidade dos serviços, eliminando os malditos dos funcionários públicos tão acomodados, tão cheios de direitos e de vontade de fazer greve. Um jeito moderno de administrar. Sempre que alguma coisa dá errado, a gente escuta que “tem que terceirizar”. Muito bem.

Mas como ninguém explica como as coisas são, de fato, no dia-a-dia de quem trabalha na Universidade, vou contar o que sei sobre terceirização. É rápido, não sei muita coisa.

Quando a limpeza era feita por funcionários da USP, tudo era mais ou menos sujinho e faltavam funcionários. O setor que tinha a sorte de contar com funcionários caprichosos e trabalhadores estava bem servido, mas não eram todos assim. Com o passar do tempo, postos de trabalho foram sendo cortados e a situação foi ficando tão ruim que a gente achou razoável a ideia de contratar uma empresa limpadora. Parecia a melhor solução, porque tirava da USP a responsabilidade de lidar com o assunto. Manter a Universidade limpa seria problema da empresa paga para isso.

Primeiro choque: os empregados da empresa eram tão desesperadamente pobres e mal treinados que muitos simplesmente não sabiam como limpar direito um banheiro ou um assoalho. Não tínhamos autorização para falar com eles, problemas deviam ser levados ao "encarregado". Segundo choque: a empresa não respeitava leis trabalhistas e não pagava os empregados.

Hoje a limpeza é feita por essas gracinhas de empresas, tudo é mais ou menos sujinho e faltam funcionários. E a gente tem que conviver com trabalhadores explorados de forma tão brutal que temos até medo de reclamar de problemas com o trabalho deles, porque nunca se sabe o que pode acontecer. Só reclamamos quando o problema é muito grave. Coisa pequena a gente aguenta, que fazer.

Quando a limpeza era feita por funcionários da USP, os livros e as estantes das bibliotecas tinham limpeza constante. Hoje poucas bibliotecas tem esse luxo, porque as limpadoras não fazem esse trabalho.

Mas não é mais barato? A USP não está economizando recursos com a terceirização? Dizem que sim, mas não sei como essa conta é feita. Entra no cálculo o tempo funcionários qualificados perdem limpando o que as limpadoras não limpam, como livros e estantes? E a deterioração nos acervos provocada pela falta de limpeza? Duvido, porque essas são questões que não sensibilizam a ninguém.

E por falar em sensibilidade, muita gente ficou escandalizada com os funcionários da empresa União, que espalharam lixo pelas instalações da FFLCH, em protesto contra o não pagamento de seus salários. Tudo bem, mas gostaria de ver mais gente igualmente indignada com a situação desses trabalhadores. Empresários entupindo a pança com dinheiro público, trabalhadores passando fome, a Universidade pagando e não recebendo o serviço pelo qual pagou, isso já é da ordem natural das coisas. Ninguém mais estranha, ninguém se incomoda de conviver com trabalhadores semiescravizados dentro de uma universidade pública.

Terceirização é isso aí.

3 comentários:

  1. O texto é como uma boa fatura. Quando recebemos ficamos satisfeitos. Porém nossa satisfação tem razões próprias e sua natureza tem origem nas leis da física, vem do excesso de inércia nas questões que achamos que estão distantes. Porém, tem sempre alguém mais forte que sai arrancando com a verdade que todos nós conhecemos. Solidariedade aos companheiros(as).

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  2. Marina, falando em sensibilidade, o pior é ouvir tanto na universidade quanto em programas abordando o assunto comentários preocupados com a volta à normalidade das atividades para que as aulas fossem retomadas.

    Afinal, a universidade está aí para isso, o que importa se um sem-número de pessoas pobres trabalham em regime de semi-escravidão e não recebem seus salários? Isso não é problema da USP.

    Ainda bem que a mobilização desses trabalhadores não permitiu que, mais uma vez, essa situação na USP passasse despercebida.

    abs

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  3. É, a normalidade. Seria bom se a normalidade não contivesse a injustiça.

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