Não era seguramente uma mulher bonita, mas também não chegava a ser o tipo que as outras mulheres avaliam com o rabo do olho e rapidamente classificam como uma “baranga”. Entre os homens, esses seres estranhos que gostam de calcinha marcando, alça de sutiã aparecendo e não sabem direito o que é celulite, suas elegantes cruzadas de perna ao sentar-se sobre a mesa em sala de aula eram bastante apreciadas. Pernas bonitas, segundo os alunos meninos. No mais, fazia o tipo intelectual acadêmica de cara lavada, óculos pesados e fala incisiva.
Depois de uns tempos sumida, voltou completamente diferente. Salto alto, meia fina, roupas formais, maquiagem carregada e cabelo arrumado por profissionais, embora segundo a moda de uns 15 anos antes. Até aí tudo bem, cada mulher tem o direito de rebocar a cara e estragar o cabelo da forma que bem entender, e isso não é tão importante. O pior era o comportamento estranhamento artificial, quase uma caricatura de um jeito supostamente feminino de ser. Imaginem algo como as misses amiguinhas da Sandra Bullock no filme Miss Simpatia, com todos aqueles saltinhos e gritos de excitação. Numa mulher de mais de 50 anos e vestida como Margareth Thatcher o efeito era bastante bizarro.
As meninas da biblioteca tinham sido avisadas para nunca, em hipótese alguma, usarem o apelido pelo qual foi conhecida durante anos, até pelos seus alunos, mas que passara a detestar. As meninas tratavam-na muito bem, mas riam dela pelas costas, ridicularizavam seus trejeitos e lhe deram outro apelido, o nome de uma personagem excessivamente dengosa de um seriado popular na época.
A maldade era, em parte, resultado da irritação da equipe com as intromissões da professora em decisões administrativas da biblioteca. Por ser membro do conselho consultivo e amiga da diretora, ela se considerava “um pouco bibliotecária” e com direito a dar palpites, coisa que as bibliotecárias de verdade não viam com muita simpatia.
Uma delas, a única que a conhecera antes da estranha transformação, embora também risse dela, ficava ligeiramente incomodada com aquilo tudo. O que teria acontecido com essa mulher? Que terapeuta picareta ou bando de amigas fúteis a teriam convencido a “explorar mais sua feminilidade” com resultados tão constrangedores? Um dia em que as duas conversavam sobre um tema acadêmico qualquer, a bibliotecária vislumbrou algo da professora de antigamente. Distraída pela discussão, ela pareceu levantar um pouco a máscara de boneca e, por um momento, voltou a falar como antes, sem afetação, apenas com um tom um pouco mais calmo e maduro. E naqueles poucos instantes em que a recuperou sua cara e voz de mulher, foi quase bonita, como jamais havia sido.
Depois de quatro anos no poder sumiu de novo, provavelmente aposentada, para alívio das meninas da biblioteca.
terça-feira, 10 de maio de 2011
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