sábado, 14 de maio de 2011

Coitadinhos

Preconceito contra nordestinos, homofobia, racismo, antissemitismo. Parece que as pessoas estão querendo transformar as redes sociais em redes de esgoto sociais, um canal perfeito para vomitar sua infinita estupidez. Adoro twitter, facebook e similares, que até me fizeram companhia em momentos de solidão, mas tem esse problema. Entre meus amigos, minha família e as pessoas com quem convivo na USP jamais ouviria os absurdos que a gente acaba lendo por aí. Bem, tem o pessoal da academia de ginástica, mas eles raramente chegam a expressar opiniões preconceituosas com o nível de agressividade que a gente vê nas redes sociais. Bom é que a reação está sendo bastante barulhenta, e temos aí mais um campo de batalha.

E no meio desse horror todo, leio sem dar muita importância um artigo no Jornal do Campus sobre alunos que sofreriam repressão em aulas e assembleias. Nada muito notável, mas uns 15 minutos depois resolvo voltar e ler de novo. A primeira parte da matéria é sobre um estudante que alega ter sido agredido verbalmente e empurrado para fora da sala pela professora. Foram ouvidas as duas partes e mais a diretora da unidade. Não dá para saber o que de fato ocorreu, mas alguns detalhes despertam a desconfiança do leitor. O aluno tem 34 (trinta e quatro) anos e está pedindo para ter aulas particulares, alegando estar sofrendo de estresse pós-traumático.

Gente, não estou entendendo. Um homem de 34 anos traumatizado por um incidente com uma professora? Choramingando que professores “ridicularizam seus alunos por chegarem à faculdade sem ter fluência em francês e latim”? Não testemunhei os fatos e peço desculpas se a matéria do jornal me induziu a ser injusta com o aluno, mas isso está estranho. Só dá para engolir a história se o homem de 34 (trinta e quatro) anos tiver algum tipo de problema emocional anterior ao ocorrido, coisa que o artigo não informa.

Eu tinha meus 18 (dezoito) anos, saída recentemente e totalmente bobinha da casa dos pais no interior, em 1979. Saía da USP à noite, de carona com um colega que brecou o carro em cima de três policiais militares à cavalo na raia olímpica. Um dos cavalos se assustou e empinou sobre o carro. Foi um susto tremendo, mas não foi o pior. Os policiais sacaram as armas e mandaram os rapazes saírem do carro. Minha amiga, chorando, pediu para ficarmos no carro, nós duas meninas. Eles deixaram, magnânimos. Seguiu-se um bate-boca bem feio, porque o motorista, um cara mais velho – uns 35 ou 40 anos, talvez – resolveu peitar os policiais, que estavam errados. Eles não poderiam estar andando no meio da rua à noite daquela forma, porque cavalos, como explicou abusadamente meu colega, não têm lanternas na bunda. Fomos embora meio assustados porque, nunca é demais lembrar, ainda estávamos numa ditadura e aquela situação poderia ter virado merda muito facilmente. No dia seguinte voltamos às aulas e a história rendeu boas gargalhadas, um carro muito amassado e absolutamente nenhum trauma.

Eu poderia também contar da ocasião em que fui perseguida por um cavalheiro da tropa de choque em seu cavalo, com um sabre na mão, em meio a bombas de gás lacrimogêneo, vendo pessoas caídas sendo espancadas por 6 (seis) policiais, mas essa é uma história muito boa que rende um post só pra ela. Só adianto que, uma semana depois, com o pé que torci na fuga ainda dolorido, já estava de novo fazendo passeata, sem nenhum estresse. Outros tempos.

Na segunda parte da matéria, alunos reclamam de repressão em assembleias estudantis. Essa é velha. Desde que ando pela USP todo mundo reclama das assembleias, que são manipuladas, que são dominadas por correntes ligadas a partidos, que são autoritárias, que são um saco. Sim, é verdade, mas isso faz parte do jogo. Se queremos movimento estudantil, discussão e política, temos que aprender a conviver com assembleias e suas mazelas. Dá para lidar com isso sem ficar miando contra a “repressão” e reclamando que seu ponto de vista é sempre “bombardeado” por todas as falas que vêm depois, como faz o queixoso estudante de 48 (quarenta e oito) anos que o JC entrevistou. Nessa idade ele já deveria saber o que é repressão de verdade e ter vergonha de reclamar da molecada. Quase meio século nas costas e se deixa intimidar por meninos que poderiam ser seus filhos? Ora, meu amigo ...

A outra “vítima” é um aluno da Poli que se diz perseguido “apenas por usar uma camiseta da sua faculdade”. Duvido. Duvido muito! Não frequento mais atividades de estudantes, porque aos 50 (cinquenta) anos, já tenho emprego e vou às assembleias de funcionários, mas tenho estrada suficiente no movimento para achar extremamente improvável que alguém seja agredido unicamente por esse motivo. Esse estudante não deve estar contando a história completa. Mas isso a gente não vai saber, porque o JC não apurou. Ao contrário do caso estudante x professora, não foram ouvidos os dois lados. Parece que ninguém tentou levantar o que acontece de verdade nas assembléias estudantis, e até que ponto se pode falar em repressão, palavra pesada muitas vezes usada indevidamente. Isso daria uma excelente reportagem, mas talvez seja mais interessante jornalisticamente dar como verdade qualquer acusação contra a esquerda, por mais improvável que pareça.

A matéria:
http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2011/05/alunos-alegam-sofrer-repressao-tambem-em-aulas-e-assembleias/

1 comentários:

  1. Muito bom. A defesa da direita é sempre isso ou aquilo sobre as assembléias, mas aparecer que é bom, necas.

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