Posso até chamá-los de “clientes”, como fazem as prostitutas e os bancos. Ou essa moda já passou e agora descobriram que “consumidor” é melhor? Mas ainda prefiro pensar em cidadãos, em comunidade ou, por que não, em pessoas. Gente.
Trabalhei em atendimento por muitos anos, na Filmoteca da ECA, uma antiga seção da Biblioteca. Nos últimos tempos já andava meio estressada, porque pessoas podem ser bem cansativas. Mas hoje sinto falta, principalmente do período mais divertido, quando eram quatro moças na Filmoteca, todas simpáticas (menos eu), bonitas (menos eu) e jovens (até eu). Embora, pensando bem, eu não fosse propriamente feia naquela época.
Tivemos usuário muito engraçados, como o proprietário de uma oficina mecânica que chegava de macacão, todo alegre e sujo de graxa, e uma vez nos levou de presente uma cachaça de produção de seu próprio alambique e que se chamava “Xixi de gato”, ou algo assim. Não ocorreu a esse simpático trabalhador que meninas jamais beberiam um líquido amarelo com a palavra xixi no rótulo. Mentimos que a bebida era muito boa, mas não, não precisava trazer mais, meninas não bebem tanta cachaça.
Como sempre acontece em equipes que atendem público e gostam disso, cada uma tinha seus usuários prediletos. E eles, por sua vez, também elegiam uma de nós como sendo a sua queridinha, por quem preferiam ser atendidos. Clientes, certo?
Apesar de eu ser a menos bonita, menos jovem e definitivamente a menos simpática, era a chefe, o que me garantia um eleitorado um pouco maior do que as demais. Tive que dar bronca em alguns que iam embora quando eu não estava, dizendo que era “só comigo”. E nem sempre era assim, às vezes outra menina teria resolvido melhor o problema do bobão ou da bobona. Para os mais teimosos eu dava até castigo: “agora quem vai atender você é ela”. Mas alguns não admitiam negociação, como o francês loirinho e rechonchudo, professor de educação infantil, que ficava batucando no balcão e gritando “Ma-rri-ná, Ma-rri-ná” até que eu aparecesse, em meio às gargalhadas gerais.
Outros eram meus não por escolha minha ou deles, mas por decisão unânime das meninas. Eram as encrencas, as pessoas difíceis de atender pelos mais diferentes motivos, consideradas problema da chefia. Para alguma coisa tem que servir uma chefe, diziam elas, frisando que meu salário era maior. Um desses era um professor que gostava de posar de “enfant terrible” e, por se enxergar como um grande injustiçado pelo sistema, acreditava que era seu direito ignorar qualquer regra elementar de polidez ou respeito pelos outros. Ninguém gostava da figura, imagino que nem a mãe dele. Eu o tratava com aquela cortesia fria e profissional que a gente aprende a usar com esse tipo de indivíduo e que eles, tão carentes de qualquer coisa, confundem com simpatia. Normalmente dava certo, exceto naquelas ocasiões em que seu descontrole era tal que nem um chicote imporia respeito, como aconteceu na última vez em que conversamos. Fui tratar com ele de um assunto banal, mas acho que toquei, sem querer, numa velha ferida, o que provocou uma explosão de palavrões, gritos e bravatas contra todos seus inimigos políticos e não políticos. Outro professor que ouvia tudo se assustou e pediu para ele parar de gritar comigo. Ele se desculpou, disse que não era comigo, e continuou com o discurso paranóico-ressentido, mas em tom mais calmo. Não me ofendi, mas me senti extremamente cansada. Não tenho treinamento médico, não sou paga para lidar com esse tipo de comportamento. Tempos depois, quando ele morreu, relativamente cedo, meu primeiro pensamento foi que não precisaria mais falar com ele. Um a menos, pensei. Não me orgulho desse tipo de reação, mas não consigo evitar.
Havia outro professor que também era “meu” e ninguém tascava, porque eu adorava atendê-lo, minha compensação por todas as encrencas. Era um intelectual importante em sua área (mesmo), inteligente e agradável, embora sempre ligeiramente distante. Eu gostava disso. Ninguém concordava comigo, mas eu o achava até bonito. O curioso é que esse professor participou, certa vez, de um debate sobre a Biblioteca e reclamou muito do atendimento que recebia dos funcionários. Disse que, quando se dirigia a um funcionário, tinha sempre a impressão de que o estava incomodando, que o funcionário estava ocupado demais para lhe dar atenção. Não estava presente no debate, mas li o resumo num jornal da Escola. Que droga, pensei, nem esse eu consegui agradar. As meninas riem de mim até hoje por causa dessa história.
Mas houve um usuário que nunca mais vou esquecer, embora tenha conversado com ele apenas por uns cinco minutos. Era um desses trabalhadores que atravessa a cidade para procurar um livro para o filho, porque o professor disse que na USP tem, que é só ir lá e pegar. Na época, a Biblioteca estava em reforma e eu não tinha acesso a internet na sala onde estava atendendo provisoriamente. Expliquei a ele onde deveria ir e indiquei uma colega que poderia ajudá-lo a localizar o livro, que nem era da nossa área. E contei que ele não conseguiria pegar emprestado o livro, ao contrário do que explicou o professor mal informado. Ele agradeceu e saiu, mas voltou logo depois e pediu licença para me dizer uma coisa. E contou que nunca em toda a sua vida tinha sido tão bem atendido numa “repartição” e nem em qualquer outro lugar, público ou particular, e voltou a agradecer pela minha gentileza. E eu, de fato, não havia feito nada, além de tratá-lo como gente.
domingo, 1 de maio de 2011
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