quarta-feira, 25 de maio de 2011

Violência e estupidez

No dia seguinte ao assassinato do aluno da FEA, uma manifestação de estudantes, funcionários e professores pedia policiamento no campus. Uma reação compreensível após a tragédia, especialmente por parte das pessoas próximas à vítima, mas não esqueçamos que crimes como esse acontecem diariamente em locais onde nunca houve qualquer restrição à presença da polícia.

Além do mais, já havia policiamento na USP quando o crime aconteceu. Tenho visto quase todos os dias carros da PM circulando pelo campus. Não entendo dessas coisas, mas também vejo sempre uns rapazes de uniformes cinzentos muito parecidos com os da PM almoçando no restaurante da FEA.

O que está faltando, então? Mais polícia? Vamos ter polícia suficiente para evitar assaltos, sequestros, estupros e assassinatos? Esses policiais serão bem preparados e treinados para respeitar a comunidade? Se isso acontecer, a Cidade Universitária vai ser um caso único em São Paulo e muita gente vai querer morar aqui dentro. Mas, e se não resolver? E se piorar, ao invés de melhorar, vamos fazer o quê, chamar o exército?

Em entrevista à Veja São Paulo, o Reitor declara que "nós todos matamos esse menino", porque a USP estaria deixando "pequenos grupos pautarem essa discussão sobre a segurança de forma distorcida”.

Não sei mais se a maioria da comunidade da USP continua contrária à presença da PM, mas essa é uma posição das entidades que representam os estudantes, funcionários e professores, e não simplesmente de pequenos grupos barulhentos. Para questionar a representatividade das entidades deveríamos ter dados objetivos, não? Uma pesquisa de opinião feita por um organismo mais ou menos neutro, talvez.

Nunca fui favorável à presença da PM no campus, mas se me garantirem que vamos todos, de fato, ter mais segurança assim, sou capaz de mudar de ideia. O problema é que ninguém pode me garantir isso. E se um dia, depois que tivermos semeado mais policias do que pés de azáleas pelo campus, acordarmos com a notícia de que um estudante foi “baleado acidentalmente ao tentar resistir à prisão”? Ou que os policiais, ao dissolveram uma festa onde se consumiam “drogas ilícitas” foram atacados pelos estudantes e obrigados a reagir a tiros, disso resultando cinco meliantes, digo, estudantes, gravemente feridos? Se isso desgraçadamente acontecer, vamos culpar quem?

Gostaria de ver o problema da segurança na Cidade Universitária discutido em bases mais sérias, com o auxílio de especialistas no assunto e a participação da comunidade acadêmica. Chega de “queremos PM” ou “fora a PM” sem mais reflexões. O Boletim do Sintusp de 20 de maio toca em questões importantes, como a terceirização da segurança, a corrupção e a violência policial, além de fazer severas críticas ao coordenador da segurança na USP. Por que não são esclarecidas as acusações a esse indivíduo que o Sindicato tem feito em diversas ocasiões?

A violência e a criminalidade assustam, mas existe outra coisa medonha e bem menos discutida voando baixo pelo campus: a estupidez. Que me desculpem os loucos por fardas e tarados por cassetetes, mas dizer que o temor à violência policial é coisa do passado, do tempo da ditadura, é uma completa estupidez. Essa violência, que não deixa de ser herança da ditadura, é uma realidade cotidiana com a qual comunidade da USP tem toda a razão em se preocupar. Imagino que todos tenham acompanhado a brutalidade da repressão à Marcha da Maconha, que até o Governador do Estado censurou. E quem nunca teve ou nunca testemunhou uma experiência desagradável com a polícia que atire a primeira florzinha.

É a estupidez daqueles que aplaudem essa violência que a estimula e a faz crescer. Se a sociedade rejeitasse decisivamente os abusos policiais, eles não aconteceriam. Mas todo mundo aplaude quando a polícia mata, porque acham que bandido tem mesmo é que morrer e entregam aos policiais o tremendo poder de decidir quem é bandido e não merece viver.

No dia seguinte à morte do estudante, encontrei no meu perfil do Facebook um comentário, feito por alguém que felizmente não conheço: a solução para a violência na USP seria explodir a favela São Remo. Sim, alguém que mostra sua cara e seu nome tem a coragem de escrever isso para todo mundo ler. Brincadeirinha?

A sociedade tem lá suas soluções para os problemas da criminalidade. Não são fáceis, mas existem. Justiça social, redistribuição de renda, educação e, se tudo o mais falhar, repressão. E para a estupidez de gente que se acha “cidadão de bem” e pensa como facínora, qual seria a solução?

A entrevista:

http://vejasp.abril.com.br/noticias/entrevista-grandino-rodas

6 comentários:

  1. Bom texto!
    Mudando um pouco de assunto, "loucos por fardas e tarados por cassetetes", seriam as Maria Batalhão?
    Se sim, acho que me incluo. Brincadeira!

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  2. Maria Batalhão? Não sei o que é isso não ... Vivandeiras?

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  3. Vivandeiras? Não, algo menos prosaico.

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  4. Se eu disser o que penso do discurso do reitor defendendo a PM no campus no dia seguinte da morte do aluno, corro o risco de ser demitido e processado. Então, fico pianinho.

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  5. Sobre a PM no campus, não sei!

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  6. Não entendo mesmo a posição de vocês que são contra a polícia no campus... sinceridade. Só posso pensar que vcs nunca viram a violência de perto e foram pegos pela falsa impressão de que a USP é um lugar seguro.

    A polícia brasileira não é mesmo das mais gentis e preparadas, mas daí a achar que ela é sempre truculenta e até desnecessária... são outros quinhentos.

    É claro que vc lida com partes dos problemas de criminalidade com justiça social e educação, mas os resultados disso vêm em médio, longo prazo, enquanto sequestros-relâmpago e assaltos estão acontecendo agora.

    Sim, a presença da polícia no campus vai deixar a USP mais segura porque só a presença de pessoas fardadas inibe crimes. É obvio que crimes vão continuar acontecendo, mas eles vão diminuir.

    Só acho que a USP não merece privilégios nem virar uma zona militarizada. Na prática o campus da USP é uma extensão do município de SP porque, na maior parte do tempo, há livre acesso para entrar e sair. O policiamento dentro da USP deve ser exatamente no mesmo nível que é fora dela.

    Quem for contra um polícia dentro da USP é contra polícia em qualquer situação... o que é um pensamento nenhum pouco razoável.

    P.S.: Discutir a terceirização da segurança e a guarda universitária é importante sim. Mas elas não são e nem podem ser polícia. Aliás o que existe hoje é uma situação bem complicada, seguranças terceirizados sem preparo nenhum e uma guarda universitária que muitas vezes acaba suprindo a falta de polícia pegando bandidos de verdade dentro do campus "a unha", já que eles não andam armados.

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