
Andar de ônibus é ruim porque o poder público e as empresas não respeitam a população. Se não fosse por isso, e se as pessoas fossem um pouquinho mais educadas, não seria tão mau. Pensem bem: até que é legal estar dentro de um carro enorme, um dos maiores e mais fortes da rua, dirigido por um intrépido profissional. E agora temos até mulheres motoristas, um luxo.
Num final de tarde pós-chuva particularmente luminoso, meu ônibus está parado no farol. Algumas pessoas ainda não acreditaram que a chuva parou e andam com os guarda-chuvas abertos, acrescentando manchas coloridas na paisagem. Na avenida, adolescentes cercam os carros para lavar os vidros. A inusitada beleza das meninas chama minha atenção. São quatro ou cinco, vestem roupas justas, estão muito maquiadas e bem penteadas. Prostituição? Estamos próximos a uma região onde floresce esse tipo de comércio. Merda de vida, elas são tão jovens.
A atitude das meninas, entretanto, não é de prostitutas. Talvez sejam apenas lavadoras de vidros que descobriram que as pessoas tendem a gostar mais de meninas bonitas do que de moleques esfarrapados. A mais bonita delas, grávida, ganha um biscoito de um motorista, desses compridos tipo waffle, que divide com outra menina, segurando com a pontinha dos dedos de unhas feitas. Delicadamente, uma pequena mordida cada uma.
Percebo vários outros passageiros observando a cena. O ônibus está meio vazio, todos estão sentados, e a mulher ao meu lado também está chorando.
Outro dia, de manhã, verão. Alguém decide inopinadamente atravessar o corredor de ônibus da Rebouças. O motorista, preocupado com o cruzamento, não vê a pedestre que não deveria estar ali e a atinge. Freada brusca, susto, gritos, trânsito interrompido às nove da manhã, gente xingando o motorista.
Eu e meu mau humor matutino descemos do ônibus para pegar outro. Estirada no chão, mais assustado do que ferida, a atropelada chora enquanto espera o socorro, amparada pelo cobrador. Dentro do ônibus, o motorista também chora consolado por duas passageiras. Na Rebouças, o caos mais absoluto. Merda de vida.

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