quarta-feira, 15 de junho de 2011

Dias de homofobia

Quando leio ou escuto algumas das estúpidas barbaridades que correm por aí a respeito dos homossexuais, quando vejo as reações preconceituosas à aprovação da união civil entre pessoas do mesmo sexo, penso às vezes na minha mãe. Nela e em tantas outras pessoas da mesma idade que conseguiram, de alguma forma, assimilar as enormes mudanças que viram acontecer no mundo no decorrer de sua vida e encarar com naturalidade coisas que em sua juventude pareceriam impensáveis. Deve ter sido difícil, mas não foi impossível. Por que minha mãe conseguiu e tanta gente mais jovem e pretensamente mais instruída nem tentou?

Talvez a estupidez simplesmente não faça parte da natureza dessa mulher com pouca instrução formal, que diz ter fugido da escola no quarto ano, mas que lê e gosta de Graciliano Ramos e João Ubaldo Ribeiro. O distanciamento dos padres também deve ter contribuído, minha mãe é uma dessas católicas que acha desnecessário ir à igreja, bota café ao lado da imagem do São Benedito na cozinha e às vezes acompanha as irmãs ao centro espírita.

Minha mãe tem mais de 80 anos e tirou água de poço, rachou lenha e passou roupa com ferro à brasa. Só não encarava matar galinhas, no tempo em que os pobres bichinhos eram comprados ainda com vida e penas, e não dentro de bandejas de isopor. Ficava no portão segurando a penosa até passar um cavalheiro com cara de assassino a quem pedia para matar seu jantar.

Lembro-me dela contando de um rapaz que não gostava de mulheres que, obrigado pela família a se casar, acabou se matando. Essa história, acontecida numa das pequenas cidades onde ela morou, deve tê-la impressionado bastante, porque sempre a menciona.

A primeira pessoa obviamente homossexual que conheci, lá pelos 13 anos de idade, foi um dos meus professores. Um dia, ao me ouvir criticar o sujeito, minha mãe me censurou minha implicância. Ninguém era bom suficiente para mim, segundo ela. Para ganhar sua simpatia, expliquei que o professor era “como o Clodovil”. Eu não sabia que palavra deveria usar, mas pensava que minha mãe não aprovaria um professor como o Clodovil. Nessa época os homossexuais que víamos na TV pareciam estar lá apenas para serem ridicularizados pela sociedade. Não havia seriados americanos com gays charmosos se casando abençoados pela mamãe Sally Field, na época apenas uma noviça voadora. Dificilmente uma criança ou adolescente do interior poderia imaginar um deles na posição de professor. Mas minha mãe pensou um pouco e cortou pela raiz minha incipiente homofobia: isso não tinha importância. A conversa deve ter sido mais longa, mas o que eu gravei foi isso: o que importava era ser um bom professor.

Mas ele não era, infelizmente. Seria mais bonito se eu pudesse contar que o Elpídio – vou chamá-lo assim – revelou-se um ótimo professor, uma pessoa à frente de seu tempo que me fez rever meus preconceitos, mas não foi assim. De fato ele era um dos piores entre aquelas figuras patéticas que fingiam dar aulas, e olhem que a concorrência era bem forte. Com o tempo comecei a desprezá-lo por ser um péssimo professor, tão autoritário, conservador e carola quanto os velhos safados que babavam disfarçadamente ao olhar as menininhas, e não pelo seu jeito de falar e andar. Porque isso não importava. Teria sido assim se minha mãe tivesse reagido de forma diferente e achado “um absurdo” um professor homossexual?

Hoje entendo que o comportamento do Elpídio era ligeiramente desequilibrado. Suas brincadeiras de fundo sexual com os meninos da classe, que incluíam esporádicos beliscões na bunda, não eram propriamente adequadas para uma sala de aula. Nenhum outro professor ousava fazer isso, nem os velhos safados. Talvez Elpídio, afinal, fosse uma pessoa tão massacrada pelo preconceito que esfregar sua sexualidade tida como “anormal” na cara dos filhotes da classe média interiorana fosse sua única e desesperada forma de resistência.

E a molecada, como reagia? Alguns até gostavam dele, justamente porque não dava aulas, portanto não atrapalhava a vida de ninguém, ou por ser palhaço ou, talvez, porque se comovessem com sua maluquice. A maioria o desprezava, como eu, e alguns até o humilhavam sempre que podiam. Mas não me lembro de ódio ou de qualquer reação mais hostil por parte deles. Nunca ouvi ninguém dizer que Deus deveria castigar o Elpídio, nem imagino algum daqueles moleques espancando o pobre professor. E aposto que, se alguém lhes explicasse direitinho a questão, a maioria daqueles alunos concordaria que o Elpídio deveria ter os mesmos direitos que qualquer outro cidadão brasileiro.

Meu pai era fã ardoroso de westerns, até mesmo dos mais toscos exemplares "made in Italy", e se divertia muitíssimo vendo alguns figurantes morrerem mais de uma vez naquelas produções vagabundas. Mas seus prediletos eram os clássicos americanos, logicamente. Um dia meu irmão leu em algum canto de revista que Randolph Scott, um dos atores prediletos do velho, era gay. Foi contar pra ele, claro, só para encher-lhe o saco. Meu pai custou a acreditar, ficou meio decepcionado, mas acabou se conformando. O que importava era ser um bom cowboy, se equilibrar direito em cima do cavalo e fazer boas caras de mau enquanto atirava. Mas, de repente, meu velho foi sacudido por uma suspeita. Olhou pra nós meio assustado e perguntou: o John Wayne também? Não, papai, John Wayne não.

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