terça-feira, 21 de junho de 2011

O olhar do escritor

Todo o mundo biblioteconômico deve ter lido a crônica do Ignácio de Loyola Brandão, Olhem nos olhos das bibliotecárias. Até o Conselho Regional de Biblioteconomia comemorou, afinal quase ninguém escreve sobre bibliotecários, a não ser para nos criticar ou ridicularizar. E não me venham com Borges, que esse era meio bibliotecário e não conta.

Na verdade, ninguém gosta de bibliotecários. De bibliotecas muita gente afirma que gosta, sem apresentar provas concretas desse amor. Na USP é assim, temos pencas de intelectuais que AMAM bibliotecas, acham IMPORTANTÍSSIMO, batem no peito para melhor externar seu apreço, mas raramente dão as caras no local. Para gostar de um bibliotecário só mesmo um outro, por isso existem tantos casais de bibliotecários.

Mas não há de ser nada, agora podemos dizer que um escritor brasileiro gosta da gente, e não é qualquer coelho não, é o autor de Zero e Dentes ao sol. Com esse último me identifiquei bastante, porque também vivi o inferno que é morar numa cidade do interior. No meu caso era Sorocaba, não Araraquara, mas basicamente é tudo a mesma tristeza.

Pena que Loyola pareça gostar apenas de bibliotecárias, não de bibliotecários, mas com certeza é porque ele só conheceu meninas. Se conhecesse o José, o Walber, o Valdo, o Izair, para citar alguns nomes cá da USP, também gostaria de bibliotecários.

Gostei de saber que o escritor nos identifica pelo olhar e pela desenvoltura no meio das estantes. Todo bibliotecário ou funcionário de biblioteca já teve a experiência de ser abordado por usuários necessitando de ajuda, mesmo estando sem crachá, fora do horário de trabalho, em outra biblioteca, aposentado, e até em bibliotecas de outros países. Isso acontece também com estudantes de biblioteconomia que ainda nem tiveram tempo de adquirir cara de bibliotecários. Sempre desconfiei que nosso jeito de andar nos denunciasse, mas como não sou escritora não pensei em olhares.

Em alguns aspectos fui mais feliz do que Loyola na infância, em outros menos. Por exemplo, o Tesouro da Juventude, 18 volumes, eu tinha à disposição em minha própria casa, que luxo. Mas, em compensação, não havia biblioteca pública em Sorocaba na época. Minha escola tinha uma, com bons livros selecionados por uma professora particularmente culta, mas não havia catálogo nem acesso direto às estantes, e a moça que nos atendia não era bibliotecária formada. Mas era gentil, um pouco atrapalhada e sempre encontrava o que eu pedia, sei lá eu como.

Quem organizou, alguns anos mais tarde, e dirigiu por muito tempo a biblioteca pública de Sorocaba foi minha primeira cunhada, moça elegante que pagou o preço por fazer um bom trabalho e transformar a biblioteca em algo importante para a cidade: perdeu a chefia da biblioteca para alguém que não era bibliotecário, mas que talvez – estou só especulando – correspondesse mais aos anseios dos políticos locais. Raramente contam isso para os alunos no curso de biblioteconomia, mas bibliotecários que não aprendem a ficar bem quietinhos às vezes levam chumbo.

O olhar generoso do escritor conseguiu encontrar graça numa profissão que quase todo mundo despreza ou nem sabe que existe, mas se enganou em sua avaliação da maldade do mundo. A faxineira que gosta de ler tem toda a razão de ter medo. Se ela for funcionária de uma empresa limpadora terceirizada, como hoje é comum nas insthttp://www.blogger.com/img/blank.gifituições públicas, é líquido e certo que a tirem da biblioteca se descobrirem seu gosto pelos livros. Para não criar vínculo com o local nem com os funcionários do quadro da biblioteca. Para desistir querer algo interessante da vida. Para deixar de ser besta.

O mundo é um lugar ruim sim, caro Loyola. É bem pior do que a gente imagina.

Olhem nos olhos das bibliotecárias

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