Depois de mais uma noite mal dormida o espelho matutino me mostra o resultado de 50 anos e meio de vida, 15 dias de dieta sem açúcar e dois meses de zumbido no ouvido: duas imensas olheiras pretas, a pele das bochechas desabando em direção ao pescoço e um certo ar de desespero que em nada contribui para melhorar o conjunto.
Corro, literalmente, para a droga da academia e puxo ferro por uma hora. Uma academia de ginástica é um dos poucos lugares onde a gente diz “está doendo” e alguém responde sorrindo “muito bem, é isso aí”. Não faço esteira para poder chegar um pouco mais cedo na biblioteca, onde me aguarda uma reunião com o Professor Que Tem Um Projeto, acompanhado pelo Professor Que Vai Ajudar. Acontece nas melhores bibliotecas universitárias e suponho que nas piores também: tem sempre um professor com um projeto que envolve a biblioteca. Por um lado é bom, porque eles se lembram da biblioteca. O lado ruim é que a biblioteca raramente é o que eles esperam, o projeto nem sempre é o que a biblioteca espera, e cada projeto é de um professor, no máximo dois. Alguns desses professores são uns chatos, e a gente sabe lidar com eles. De outros a gente até que gosta por algum motivo insondável; esses são os piores.
Banho rápido e me arrumo apressadamente, imaginando se aquela calça baratinha não teria sido feita por mãos de trabalhadores escravos. Tento consertar o desastre da cara com sombras e corretivos que devem ter sido testados em coelhinhos, com resultados pífios. Todo mundo me diz para ir às reuniões bonitinha e simpática, mas ninguém me explica como. “Amor, estou muito feia?”, pergunto, sem querer de fato ouvir a resposta, que é genial: “não sei, estou sem óculos”. Homens às vezes são muito espertinhos.
No ônibus descubro a inutilidade dos meus esforços. Trânsito ensandecido na entrada da USP, não vou chegar a tempo. Desço na Reitoria e resolvo atravessar correndo a Praça do Relógio, para compensar a falta da esteira e chegar antes dos professores. Corro com tranquilidade, orgulhosa da minha boa forma física, até que os 15 dias sem doce mostram a que vieram: minha calça começa a cair. Humilhada, reduzo para um passo rápido e chego 45 segundos antes dos professores, em tempo apenas de lavar as mãos. Detesto cumprimentar as pessoas com as mãos sujas de ônibus.
A reunião transcorre mais ou menos dentro do previsto. O Professor Que Tem um Projeto e eu brigamos cordialmente o tempo todo. Ele me acusa de erguer “muralhas e montanhas intransponíveis”, eu respondo abusada que só estou mostrando a realidade. O Professor, que há muitos anos foi meu professor , não se incomoda. Ao menos ele não é desses que se encrespam ao ouvir qualquer coisa diferente de “claro, professor” ou “sim, professor” vinda da boca de um funcionário. O Professor Que Veio Ajudar, elegante e tranquilo, sorri meio penalizado e bota ordem na reunião.
Almoço correndo, sem vontade nem alegria. Qual é a graça de comer se não posso devorar um pudim depois?
Volto rápido para minha mesa de trabalho, pensando se vale mesmo a pena almoçar em menos de uma hora, como já me habituei a fazer. Dez minutos a mais de trabalho não movem montanhas intransponíveis, não fazem o computador travar menos nem a gavetinha do CD abrir sem o uso de um clipe. Percebo que estou há muitos anos tentando escalar muralhas e montanhas instransponíveis, que não fui eu que criei, mas não importa, porque elas estão lá. Talvez eu devesse ter usado dinamite.
O Professor Que Tem um Projeto também tem um sonho, ou vários. Eu, que mal consigo dormir, me contentaria com uma boa noite de sono e um Sonho de Valsa.

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