Aquele estágio era o primeiro mais ou menos sério da Lucinda, estudante de biblioteconomia. Melhor dizendo, seria sério se o chefe conhecesse o conceito seriedade, mas foi útil. Lucinda aprendeu todos os erros que poderia cometer, tanto técnicos e profissionais quanto de relacionamento profissional. Aprendeu tudo que não deveria fazer e nunca mais fez. Como não indexar, como não catalogar, como não administrar. Percebeu que a maioria das pessoas não sabe escrever e por isso se impressiona facilmente com qualquer bobagem embalada num texto bem escrito. Nem percebem que o conteúdo é pífio. Muito útil o primeiro estágio quase sério da Lucinda, que escrevia bem desde menina.
Descobriu também que é perfeitamente desnecessário ser educada com velhos de trinta anos que gostam de cantar estagiárias. Que a resposta apropriada à pergunta "posso ir com você" quando se está indo ao cinema não é um pouco animado "pode ser" mas um decidido "NÃO" . O "pode ser" de menina tímida rendeu a Lucinda uns bons minutos de aflição na sala de espera quando bateu o medo de que algum colega da Universidade a encontrasse na companhia daquela anta, já pensou se a anta resolvesse emitir alguma opinião sobre cinema?
O ambiente empresarial não entusiasmava muito a jovem estagiária, mas observar o comportamento da fauna era relativamente divertido. Havia a ótima secretária que tratava o bando de machos como crianças necessitadas de corretivo, não importava o cargo. Todos morriam de medo dela, não importava o cargo. Os homens passavam tempo todo espiando as moças e cochichando, ou especulando sobre quem entre os colegas seria homossexual. Foi aí que Lucinda aprendeu como os homens muito orgulhosos de sua macheza se excitam com a sexualidade de outros homens, coisa curiosa. Seu chefe era um dos alvos prediletos, cavalheiro casado e pai de duas crias, que os colegas chamavam abertamente de “gilete”, gíria da época para “bissexual”.
O chefe era intelectualmente limitado e bajulador, e logo Lucinda percebeu que ele dependia do trabalho dela para ganhar pontos com o chefão do local, mas não tinha inteligência suficiente para deixá-la trabalhar da forma correta. Apesar disso ela não conseguia detestá-lo completamente, porque cheirava muito bem e ostentava uma bundinha interessante. Um homem para ser visto pelas costas, sem dúvida.
Em seu último mês de trabalho ocorreu a estranha conversa com a Carol, outra estagiária. Era uma moça sem beleza física, que se vestia como uma velhinha, mas dotada de tão grande suavidade de gestos e fala que se tornava agradável aos sentidos. Carol sumiu por uns tempos, depois voltou e, um dia, foi pedir para Lucinda explicar-lhe um pouco de seu trabalho, que dizia achar interessante, mas não entendia muito bem. Sentaram-se as duas meninas à mesa de Lucinda, que se pôs a traduzir o misterioso mundo do tratamento da informação para a colega, que a ouviu quietinha, quase sem perguntas. Terminadas as explanações técnicas, começou a conversa. Carol explicou que esteve afastada por causa de uma crise nervosa, mas que já estava bem. E contou, com sua voz tranquila, uma das mais terríveis histórias de sofrimento que a jovem Lucinda já havia escutado, envolvendo um drama familiar traumático e duas mortes de pessoas queridas, em circunstâncias trágicas. Ouvia gelada o relato, sem saber o que dizer. O chefe de Carol, um homem irônico de traços delicados, que raramente participava das brincadeiras idiotas dos demais machos, mas que era muito respeitado por todos, teve papel importante na história. Apoiou a estagiária durante toda a crise, visitou-a em casa, emprestou um ombro amigo e eventualmente outras partes do corpo, pois logo começaram um “relacionamento”, como dizia Carol. Separou-se da mulher. Os dois estavam alugando um apartamento e logo que saísse o divórcio iriam se casar. Comovida, Lucinda desejou as felicidades de praxe. Nunca mais se falaram, porque Carol mudou de departamento, provavelmente para não misturar estações.
Lucinda não conseguia entender porque a moça, praticamente uma estranha, contara tudo aquilo. Necessidade de desabafar com alguém que não conhecia? O psicanalista havia recomendado à pobrezinha falar muito sobre o assunto? Lucinda chegou a aventar a possibilidade de tudo não passar de fantasia, delírio de alguém que ainda não havia superado problemas emocionais muito graves. Mas não era isso, porque começou a escutar os planos do pessoal para comprar presentes para o novo casal.
A futura bibliotecária saiu da empresa e foi aplicar os conhecimentos adquiridos em outro canto. Um dia, numa loja de roupas, topou com a secretária mandona, que deu notícias do pessoal. Carol e ex-chefe se casaram e estavam esperando um bebê. A história terrível era mesmo verdade, confirmou a secretária, mas agora tudo estava bem.
Foi então que Lucinda compreendeu. Todos no departamento acompanharam a história do casal, menos ela, que era a mais nova da equipe e não era muito de conversa. Carol provavelmente não queria que ninguém a visse como uma destruidora de lares, ou seu companheiro como um sedutor de mocinhas. Os demais sabiam que não era nada disso e estavam solidários, mas a estagiária de biblioteconomia era uma incógnita. Por esse motivo, Carol arranjou um pretexto para contar-lhe tudo, daquela forma inusitada. Queria que sua história fosse vista com uma história de amor, não como uma fofoca sórdida de escritório.
As pessoas, concluiu Lucinda, são estranhas, mas não tão estranhas quanto a gente imagina.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário