
Algo me incomodou nas palestras de Luli Radfahrer e Manoel Joaquim dos Santos Pereira sobre o tema Direitos autorais e acervos digitais, na ótima VI Semana de Biblioteconomia da ECA/USP.
Sou a favor, como todo mundo que não seja editor de livros ou similar, do acesso o mais aberto possível à informação. Também gosto bastante de encontrar todos os artigos que estou procurando inteiros e bonitinhos numa base de dados qualquer e salvar no tablet, e gosto mais ainda de poder oferecer isso ao usuário que me olha como se eu fosse um dragão de Comodo se digo que ele precisa pegar a revista na estante.
Mas não consigo deixar de achar sinistras frases como “não tenho mais que ir à biblioteca para encontrar artigos”, ou pior “não preciso mais ir a Paris para fazer minha pesquisa”, e totalmente trágico “o cara que mora numa cidade do interior não precisa mais vir a São Paulo para ter acesso às informações que precisa”. Nesses momentos eu, que ainda gosto de sair de casa e ir aos lugares, quase fico contente que ainda existam barreiras legais, culturais ou tecnológicas que forcem as pessoas a se moverem. Tá bom, essas afirmações só querem dizer que o acesso à informação precisa ser mais simples e rápido, mas há um lado em mim que se entristece quando as escuto, ditas assim com tanta naturalidade.
Lembro-me de que ter acesso a livrarias, museus, grandes bibliotecas e, sobretudo, cinemas, foi o grande estímulo que me fez deixar o inferno de tédio que era minha vida no interior. Só quem morou numa “pequena cidade no interior” e odiou cada minuto sabe do que estou falando. Será que se eu tivesse 15 anos em Sorocaba, hoje, me contentaria em baixar filmes e assistir no celular?
Fico pensando se o cara que não precisa mais fazer o sacrifício de ir a Paris para concluir sua pesquisa não vai adiar em vários anos sua visita a essa cidade tão imprescindível. Ou pior ainda, privado da forte motivação da pesquisa, não corre o risco de nunca ir a Paris? E de que adianta fazer uma pesquisa e não ir para Paris?
Gosto de andar pelas ruas, subir escadas, viajar de trem, fuçar em estantes. Fico feliz de poder fazer isso. Passar um fim de semana confinada em casa pela gripe, em companhia do Facebook, é algo que me deixa profundamente frustrada.
Quero sempre ter a alegria de ir e vir.

Ótima observação!
ResponderExcluirMuito bom post.
ResponderExcluirAlgumas áreas se incomodam mais do que outras com essa "compressão" do tempo e espaço. Certa vez fui em uma palestra sobre curadoria em museus de arte e algumas das pessoas presentes achavam 'um absurdo' projetos como o Google Art Project, por exemplo.
ResponderExcluirPara mim, é ótimo que o Google Art Project exista: por hora não tenho dinheiro pra visitar os museus de arte mais legais da Europa. A diferença é que entendo que ele funciona apenas como paliativo e não substituirá, jamais, uma visita até o local onde as obras estão e onde a cultura realmente vive.
Esse pessoal é muito elitista. Eu imagino que o Google Art possa até despertar interesse em conhecer o museu real. E os professores de arte, que usam fotografia e outros substitutos para ensinar, sempre dizem que é importante ver a obra em seu contexto, na parede. Se não se pode ir ao museu ...
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