terça-feira, 6 de setembro de 2011

Pata peluda

Meu relacionamento com os colegas de profissão e, eventualmente, de infortúnio é sempre um tanto delicado. Não me sinto muito bem no meio dos bibliotecários. Desconfio que os colegas me acham metida, maluca e um pouco grossa, e não estão totalmente errados. Meu desconforto é, de fato, com a profissão, uma escolha na minha vida que não foi totalmente acertada, embora não se possa chamar de desastrosa. Numa profissão na qual as pessoas se orgulham em fazer trabalho de formiguinha, sou praticamente um paquiderme numa loja de cristais.


Há quem pense que eu menosprezo os bibliotecários, mas isso não é verdade. Bibliotecários em geral são gente séria e decente, que trabalha honestamente. Nesses anos todos de exercício profissional conheci apenas um caso grave de falta de dignidade e comportamento corrupto. Não é muito. Poucos outros profissionais poderiam dizer a mesma coisa. Acontece é que os colegas me irritam, principalmente aquelas meninas e meninos de qualquer idade, alguns já meio maduros, que sempre falam por meias palavras - porque palavras inteiras são muito fortes e podem ofender. Que têm dificuldades em expressar raiva e escondem a irritação por trás de um silêncio tão polido quanto reprimido. Gente que parece achar que não tem direito a se expressar e a ter opinião. Não que eu goste de megeras e ogros que gritam e não deixam ninguém falar mais do que eles, mas esse tipo é mais raro na categoria. Geralmente ocupam cargos de chefia e são ridicularizados pelas costas pelos subordinados, o que sempre é divertido, convenhamos.

O que mais me impacienta no comportamento do bibliotecário bonzinho padrão é seu apego a regras, tanto as da etiqueta quanto as de catalogação. Fico sempre frustrada quando uma idéia inteligente qualquer se esborracha de encontro a um muro de regras obsoletas e só um silêncio embaraçoso me responde quando pergunto se não é possível mudar a regra. Regras não deveriam existir para atrapalhar, mas para tornar o trabalho melhor.

Cansei de respostas do tipo "todo mundo faz assim", primeiro porque não é exatamente verdade, segundo porque logo "todo mundo" vai acabar desertando das nossas bibliotecas cheias de dogmas sagrados.

Mais o que mais me assusta e entristece é quando pergunto "por quê" numa dessas situações que envolvem regras e não obtenho resposta satisfatória. Na verdade, às vezes não obtenho resposta nenhuma, o que é bem pior. E aí eu acabo ficando agressiva ou irônica ou os dois, pecados indesculpáveis numa profissão de moças bem educadas. Azar meu, porque não escolhi ser soldado (existe soldada?) ou tratadora de hipopótamos? Uma amiga querida e colega jura que me ouviu dizer que se eu não fosse bibliotecária seria assassina em série, mas deve ser veneno dela. Não me lembro de ter feito essa piada tão boa!

Outra amiga, uruguaia, me chama de "pata peluda", equivalente uruguaio e mais expressivo ao nosso "boca dura". Às vezes penso que falta à nossa profissão um pouco mais de pelos nas patas, mas não pelo de formiga, por favor. Será que formiga tem pelo?

Outra situação chata é a da crítica. Bibliotecários raramente criticam o trabalho de colegas, só elogiam ou se calam, quando o elogio é totalmente impossível. Trabalhos de bibliotecários são como os bebês, todo mundo acha bonitinho, mesmo contra todas as evidências da estética e da lógica. Já fui vítima dessa polidez várias vezes. Não é chato descobrir que algo que você fez ficou uma bela duma porcaria e ninguém te falou, por "educação", peninha ou medo mesmo?

Mas como para tudo sempre há um consolo, alguns momentos me fazem sentir melhor em ambientes bibliotecários. Quando um desses colegas bem comportados se aproxima e me segreda que concordou com o que eu disse. Que sempre pensou um pouco como eu, só não é de ficar falando por aí. Ou quando percebo, no meio das expressões de perplexidade e constrangimento, o olhar de cumplicidade de alguém bem jovem, um estagiário ou bibliotecário bem novinho que não é besta de ficar se expondo, mas sente e pensa o mesmo que eu. Aí eu fico contente e penso que talvez, um dia, as coisas mudem.

3 comentários:

  1. Excelente texto! Eu como futura bibliotécaria me deparo com profissionais da área tentando nos moldar ainda quando somos estagiários, talvez por medo de competição no mercado ou simplesmente medo de que argumentemos com o que eles "mais velhos" por conseguinte "mais experientes" demoraram tanto tempo para fazer. Muitos desiludidos, já vi por aí, ainda dizem não ver a hora de deixarem de ser bibliotecários por " sentir vergonha de ser bibliotecário"! Esse texto já é um ingrediente a mais pra essa massa não virar um bolo azedo!
    Obrigada!

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  2. Pois é, meninas. Às vezes tudo o que resta é respirar fundo e pensar que A LUTA CONTINUA!

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