Os estudantes de Biblioteconomia, a julgar pelo artigo do Jornal do Campus desta semana, ainda se preocupam com o famoso estereótipo profissional dos bibliotecários. É compreensível. Quando a gente é jovem, inteligente e mais ou menos bonitinho é difícil se imaginar numa profissão de velhinhas ranzinzas e mal vestidas.
Acho que todos já passamos por isso. Na minha época de estudante, mais de 30 anos atrás, meus colegas e eu também nos indignávamos com o tal estereótipo e fazíamos de tudo para nos descolarmos da imagem dos bibliotecários vendida pelos meios de comunicação. Hoje alguns dos colegas mais novos do que eu são professores dessa nova geração. Os velhinhos agora somos nós, quem diria, e nossas preocupações principais são o colesterol, a taxa de açúcar e como pagar a escola dos filhos.
Logo na segunda semana de aula, porque na primeira é só festa, um professor explica que bibliotecário não é uma velhinha de óculos, roupa assim, cabelo assado fazendo psiu no meio dos livros. Os alunos, que geralmente não conhecem muitos bibliotecários, começam a ficar preocupados nesse exato momento. E continuam preocupados durante todo o curso e nos dois ou três primeiros anos de vida profissional. Depois descobrimos que o fatídico estereótipo é um bom tema para trabalhos acadêmicos, e só. Nenhum impacto na vida prática, nenhuma relação com os problemas reais da profissão. Ninguém consegue ou perde um emprego por se enquadrar ou desenquadrar no estereótipo, o salário não aumenta se a gente usar ou deixar de usar colar de pérolas.
Todas as vezes que alguém me disse que eu não parecia bibliotecária – porque estava de saia muuuito curta – esse alguém era outro bibliotecário. Usuários não prestam atenção nisso, a maioria nem sabe direito que diabos é um bibliotecário. A propósito de roupas, o patrulhamento em cima do meu modo de vestir começou ainda durante o curso, pelos próprios colegas estudantes, e continua até hoje. E olhem que as barras das minhas saias subiram bastante com a idade.
O problema não é o estereótipo, é a realidade. Profissão feminina, portanto desprestigiada e mal paga. Categoria com perfil conservador, excessivamente apegada a regras. Bibliotecárias extremamente capazes que se escondem e se fingem de mortas para não despertar ciúmes naqueles que se julgam os guardiões do saber, evitando assim alguns dissabores. Responsabilidades imensas, pouquíssimas condições práticas para enfrentar trabalhos de Hércules como o que hoje nos colocam nas mãos: se os bibliotecários não FIZEREM ALGUMA COISA JÁ as bibliotecas vão desaparecer da face da terra e a culpa vai ser nossa.
Sei que esses alunos, moçada inteligente e crítica que organiza a Semana da Biblioteconomia e faz tempestuosas avaliações do curso, não se preocupa só com isso. Estão ligados em muitas outras coisas e provavelmente vão ser profissionais disputados à tapa.
Quanto às velhinhas, conheci algumas que fizeram coisas na vida que um jovem de hoje nem sonhou em fazer, nem precisou. Nem eu, que já sou cinquentona. Coisas como encarar o mercado de trabalho numa época em que poucas mulheres faziam isso, queimar sutiãs e até enfrentar ditaduras de arma na mão.

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