domingo, 18 de setembro de 2011

A pergunta

Sempre quis saber quanto tempo a gente perde no trabalho esperando arquivo abrir, programa destravar e servidor caído levantar. Deve ter algum programinha ou plugin dos infernos por aí que ajuda a calcular, mas aposto que também trava. Aí fiz minha própria estimativa: perco de uma a uma hora e meia por dia, em média. Enquanto isso a lista de pendências só faz subir, não é legal?

Também gasto bastante tempo respondendo à pergunta clássica do usuário contemporâneo:

- Por que vocês não digitalizam todo o acervo desta biblioteca?

Vocês devem ter reparado no verbo gastar. Não posso dizer que “perco” tempo respondendo a usuários porque isso é minha obrigação. Essa indagação tão atual às vem escondida atrás de palavras ambíguas, como se o usuário estivesse um pouco vexado de perguntar coisa tão óbvia:

- Por que vocês não disponibilizam os livros da biblioteca para os alunos?

Para essa formulação normalmente eu me faço de besta e respondo que todos os livros estão disponíveis. Alguns não podem ser emprestados, mas qualquer cidadão pode ter consultá-los à vontade na biblioteca. Esse tipo de resposta causa sempre algum estranhamento, como se eu fosse um ser de outro planeta. Não ... seria tipo assim pra gente baixar ... Ah, bom. Aí eu paro de ser escrota e respondo direito. É errado uma bibliotecária velha se divertir um pouquinho, tipo assim de forma didática?

Os mais espertos apresentam a pergunta em forma de sugestão original:

- Vocês já pensaram em digitalizar todos os livros e disponibilizar na internet?

Quando alguém na USP pergunta a um funcionário se ele “já pensou” em alguma coisa geralmente está implícita a suposição de que funcionário não pensa. Mas nem sempre. Algumas pessoas realmente só querem ajudar.

Quando a pergunta vem de estudante não é problema. Os estudantes normalmente entendem logo a explicação, embora possam não gostar dela. Que saco, tudo é ilegal, tudo é difícil, tudo demora?! Mas tenho observado que cada vez menos estudantes tiram da mochila a questão. Talvez eles já tenham entendido tudo. Ou já desistiram de bibliotecas e bibliotecárias chatas. Curiosamente, já ouvi de alguns dos mais jovens frases como “ainda bem que não está tudo online, prefiro os livros”. Só falta a gente “disponibilizar” tudo no facebook e a molecada voltar pras estantes.



Quando a pergunta é de origem docente tudo fica mais complicado porque, como todos vocês já notaram, professor sabe. Eles não se rendem facilmente e têm vasto repertório de argumentos, afinal são doutores, e a pergunta já vem em forma de projeto. Direitos autorais? Não há problema, é para fins educativos! Tecnologia, pessoal? Muito simples, a gente contrata estagiários e compra escâner com verba da FAPESP. E dependendo da posição do professor na escala do poder, ele consegue apoio do Reitor para a ideia. Nessas situações, se a bibliotecária bobeia já fica com listinha de tarefas para a próxima reunião: calcular quantos estagiários e escâneres serão necessários, e fazer a lista de todos os livros da biblioteca em ordem de prioridade. Não, não precisa imprimir a lista, pode mandar pro e-mail do professor. Eles são assim, por isso nós os amamos tanto, não é mesmo?

1 comentários:

  1. Eles nunca ouviram falar daquele cezinho dentro de uma bolinha que se chama copyright?

    ResponderExcluir