terça-feira, 11 de outubro de 2011

Um conto de Borges


Jorge Luis Borges, que foi bibliotecário e diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, é um escritor que bibliotecários deveriam amar. Pena que não são muitos os que o leram. Erudito e culto, seus contos são cheios de citações, referências a livros e bibliotecas e outros temas apreciados por bibliotecários, como a memória.

Um dos meus prediletos é “Tlon, Uqbar, Orbis Tertius”. Um verbete sobre um país inexistente - Uqbar - inserido num volume de enciclopédia desperta a curiosidade do narrador e de seu amigo Bioy Casares. É um mistério, em nenhum outro exemplar da enciclopédia consta o tal verbete, apenas no de Bioy. Tempos depois, outro livro aparece, um volume inteiro de uma enciclopédia de um mundo imaginário: A first encyclopaedia of Tlön. A humanidade fica completamente fascinada por Tlön, uma irrealidade muito mais interessante do que nosso mundo real. Com tempo, começam a ser encontrados misteriosos objetos originários de Tlön.

Tlön é obra de uma sociedade e intelectuais e cientistas denominada Orbis Tertius, que resolveu criar um planeta em todos os seus detalhes históricos, geográficos e filosóficos. E que elaborou os 40 volumes de uma enciclopédia “exumada” por um jornalista numa biblioteca de Memphis, uma descoberta que faz realidade ceder “em mais um ponto”.

“Como não submeter-se a Tlön, à minuciosa e larga evidência de um planeta ordenado? Inútil responder que a realidade também está ordenada”. Mas o mundo real, explica Borges, está ordenado por leis que nunca percebemos completamente.

E termina assim a história do real substituído por uma realidade construída e inventada:

O contato e o hábito de Tlön desintegraram este mundo. Encantada por seu rigor, a humanidade esquece e torna a esquecer que é um rigor de enxadristas, não de anjos. Penetrou nas escolas o (conjetural) ‘idioma primitivo’ de Tlön; já o ensino de sua história harmoniosa (e cheia de episódios comovedores) obliterou o que presidiu minha infância; já nas memórias um passado fictício ocupa o lugar de outro, do qual nada sabemos com certeza – nem, ao menos, que é falso. Foram reformadas a numismática, a farmacologia e a arqueologia. Acho que a biologia e a matemática aguardam também seu avatar ... Uma dispersa dinastia de solitários mudou a face do mundo. Sua tarefa prossegue. Se nossas previsões não errarem, daqui a cem anos alguém descobrirá os cem volumes da Segunda Enciclopédia de Tlön.
Então desaparecerão do planeta o inglês e o francês e o simples espanhol. O mundo será Tlön.


O conto foi escrito em 1941. Hoje somos quase Tlön.

BORGES, Jorge Luis. Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. In: Ficções. Porto Alegre, Rio de Janeiro: Globo, 1982, p. 1-19.

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