As previsíveis consequências da intensificação da ação da PM no campus já se aparecem. Aluno da ECA é abordado e revistado por ter “olhado feio” para os policiais, segundo o Jornal do Campus. Fiquei preocupada com isso, porque olhar bonito não é exatamente a minha especialidade, mas depois me lembrei de que sou mulher, meio velha e muito BRANCA, então acho que não corro tantos riscos. Poucos dias depois acontece o que está em todos os jornais: policiais tentam prender alunos que supostamente fumavam maconha, colegas reagem, policiais entram no prédio da Ciências Sociais atrás dos alunos e tudo acaba em ocupação do prédio em repúdio à presença da polícia no campus.
Parecem se confirmar os piores prognósticos dos que diziam que a polícia viria não para dar segurança, mas para reprimir os estudantes.
Igual a tantas outras pessoas, eu não gosto e tenho medo da polícia, porque quase todas as minhas experiências com os bravos homens da lei foram muito negativas, para dizer o mínimo. Universidade e polícia, definitivamente, não combinam. Mesmo assim, AINDA não sou totalmente contra a presença da polícia na USP, por um simples motivo: não dá para gritar “Fora PM” hoje e “Socorro, polícia” amanhã. Às vezes, gostando ou não, precisamos da polícia. Já me surpreendi em certas ocasiões procurando uma viatura com o olhar - e nem sempre encontrando. Quando homossexuais são agredidos em plena Avenida Paulista todo mundo pergunta: cadê a polícia?
Na mesma matéria do Jornal do Campus integrantes da Guarda Universitária afirmam que as “ocorrências” (furtos, roubos) diminuíram com a maior presença da polícia no campus. Esse é um dado que, se for verdadeiro, precisa ser considerado.
Mas não pode ser desse jeito, não podemos chamar a polícia para nos proteger e pronto, deixar tudo por conta deles. Agora é a polícia que manda na Universidade de São Paulo? Vamos ter que aturar policiais armados invadindo prédios de arma na mão para prender estudantes? E por fumar maconha?
Ah, mas fumar maconha é proibido, a polícia tem que fazer alguma coisa, argumentam os moralistas legalistas de plantão. A afirmação tem algo de cômico numa cidade onde a Cracolândia é praticamente um ponto turístico e onde eu vejo gente fumando maconha placidamente pelas ruas de Pinheiros, Vila Madalena e Jardins, em plena luz do dia. Além do mais, quem gostaria de ver um filho ou aluno seu sendo enfiado num camburão, à mercê de policiais violentos e despreparados, que, ademais, detestam os nossos alunos supostamente todos esquerdistas, filhinhos de papai e “maconheiros”? E por falar nisso, que aconteceu com aquela prática tradicional de não se permitir prisão de estudantes no campus sem um representante da administração da Universidade para acompanhá-lo à delegacia? Caiu em desuso?
Se isso continuar assim, se deixarmos, logo mais veremos policiais entrando em salas de aula e intimidando professores, perseguindo alunos entre as estantes das bibliotecas e jogando os livros no chão para encontrar droga escondida, invadindo laboratórios e danificando acidentalmente equipamentos caríssimos. Quem já viu um policial assustado e enfurecido em ação sabe como é.
Assim como o crime não vai acabar se a gente fechar os olhos, a violência e a corrupção policial também não vão desaparecer sozinhas. A comunidade da USP e suas autoridades precisam pensar nisso.
Os alunos da FFLCH mostraram um dos caminhos possíveis: a resistência. É a nossa resistência que vai impor os limites a essa “tropadeelitização” da Universidade. Estou completamente solidária à ação dos estudantes. Sua resistência e disposição para brigar podem forçar uma mudança de rumos não apenas na ação policial, mas na forma como a Universidade trata as questões de segurança no campus.
Termino citando a frase do professor Lincoln Secco, em texto publicado no blog Vi o Mundo, comentando o uso dos livros como armas pelos estudantes no dia do confronto:
“No momento em que o conhecimento mais é ameaçado, os livros velhos de papel, encadernados, carimbados pela nossa biblioteca são erguidos contra o arbítrio”.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
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