Aconteceu durante uma greve, em meados da década de 1980. Fazíamos o que costumo chamar de “piquete dupla-face” na Reitoria: por fora uma camada de manifestantes tentando convencer os colegas a não entrarem para trabalhar, por dentro uma camada de policiais estimulando-os a fazer o contrário. Às vezes a situação ficava um tanto tensa. Algumas mulheres piqueteiras puxavam conversa com os policiais, na esperança de apanhar um pouco menos caso os moços resolvessem sentar porrada. Às vezes dava certo.
Eu, que nunca havia estado tão perto assim de policiais, achava interessante observar o comportamento deles. Alguns eram pessoas normais, perguntavam por que diabos moças como nós estavam metidas naquela confusão, pareciam até animados com a quantidade de mulheres que os cercavam. Normalmente suas atividades eram mais pesadas do que enfrentar mulheres num campus universitário.
Mas nem todos eram assim. Os menos sociáveis não gostavam de conversar e pareciam ter medo de nós. Diziam que éramos todos comunistas, que “nossos líderes” recebiam dinheiro de Moscou, que a gente queria transformar o Brasil numa ditadura comunista e assim por diante. Era quase impensável que, naquela época, ainda existissem pessoas que acreditassem nessas coisas. Mas eles acreditavam. Seus superiores, em quem confiavam, contavam esses histórias para eles. Como explicar que o Partido Comunista para o pessoal da USP era praticamente a direita? Não, melhor não. Mas algumas meninas bem que tentavam. Lembro de uma perguntando pro PM se ele sabia quem era Leon Trotsky …

O mais simpático, ou o único simpático de verdade era o Bigode. Chegou a confessar que achava que nós estávamos certos em defender nossos direitos, embora não aprovasse a “baderna” que estávamos aprontando. A baderna era o piquete. Bigode criticava os colegas que batiam em mulheres. Dizia que não era necessário, que eles sabiam como dominar gente desarmada e pouco perigosa sem machucar. Um dia deu uma pequena demonstração. Exibido, derrubou ou imobilizou diversos “atacantes”, sem usar violência propriamente dita.
Havia outro policial que se destacava por motivos inversos. Sempre tenso, não falava com ninguém, nem para nos chamar de comunistas. Tinha um olhar alucinado, e Bigode avisou pra gente ficar longe dele. Logo descobrimos que ele sabia do que falava.
Um dia aconteceu um confronto sério. A oposição à diretoria do Sindicato propôs invasão da Reitoria, a assembleia aprovou e, quase que imediatamente, oposição e diretoria subiram na laje do MAC para cumprir a tresloucada decisão. Os policiais, obviamente, não deixaram. Durante a confusão, vi o Alucinado sacar o revólver duas vezes. Bigode, que estava ao lado dele, segurou-o e o fez guardar a arma.
Por onde andam esses dois personagens? Espero que Bigode esteja bem, que não tenha levado um tiro em serviço. Quanto ao Alucinado, também espero que esteja bem, bem longe daqui. E torço para que não esteja no comando de nada.
Na mesma greve, ou talvez na anterior, não me lembro mais, tive a minha experiência mais animada com a tropa de choque, lá no Palácio dos Bandeirantes. Naquele dia o pessoal da USP apanhou seriamente, num daqueles momentos complicados da relação entre governo e população. Sabíamos que não poderíamos chegar aos portões do Palácio, porque o governador Quércia já havia avisado que era proibido, por ser área de segurança. Descemos do ônibus e vimos a barreira de homens à cavalo. Pensei que ficaríamos por lá, fazendo nossa manifestação em frente a eles, como de hábito. Não foi assim. os policiais simplesmente vieram para cima da multidão, jogando bombas e espancando quem conseguiam pegar. Ninguém esperava por aquilo, havia até mães com filhos pequenos naquele dia. Hoje ninguém mais faz isso, mas na época era comum levar crianças nas manifestações.
Eu corri e consegui escapar do policial que me perseguiu, em meio à fumaça do gás. Foi a primeira vez na minha vida que eu senti que poderia não sair com vida de uma situação. É claro que ninguém tinha a intenção de matar ninguém, mas a confusão era muito grande. Se eu caísse, se fosse pisoteada pelo cavalo ou pelos próprios manifestantes que corriam em desespero, o que poderia acontecer? Pensava nisso enquanto corria, sem olhar para os lados para não ver gente caída sendo espancada. Percebi que as pessoas que paravam para ajudar um companheiro caído apanhavam muito. Não parei para ajudar, mas também não atropelei ninguém, não empurrei nem pisei em cima de quem estava na minha frente. Consegui manter esse nível mínimo de racionalidade. Multidões assustadas podem ser bastante perigosas.
Aprendi coisas interessantes naquele dia, além de jamais ficar de bobeira na linha de frente da manifestação. Vi um grupo de 5 ou 6 policiais cercando um estudante que já estava no chão e batendo nele com os cassetetes. Não deixavam ninguém se aproximar para socorrê-lo e só pararam quando o rapaz teve uma convulsão. Por que isso?, perguntei depois para os militantes mais experientes. Que perigo poderia oferecer um rapaz caído? É para dar exemplo e aterrorizar os demais, me explicaram.
Também vi alguns militantes, em sua maioria mulheres, agarrando um companheiro que estava sendo preso. Gritavam, apanhavam, mas não desgrudavam do sujeito. Pra que fazer isso, perguntei depois para uma amiga que estava na confusão. Vocês achavam que iriam conseguir impedir os policiais de levarem o cara? Não, a ideia não era impedir que o companheiro fosse preso, mas ir com ele para a delegacia. Como os PMs sabiam que a polícia civil soltaria todo mundo, aproveitavam para bater muito em quem ia sozinho no camburão, antes de chegar à delegacia.
Depois desses tive outros encontros com a polícia, e pressinto que ainda terei vários. Como disse Marilena Chauí, isso não vai acabar nunca?
Agora estamos com a polícia dentro do campus, supostamente para “nossa proteção”. Uma polícia que já deu várias mostras de que tem ódio aos estudantes e que confunde movimentos sociais com banditismo ou terrorismo. Talvez não pensem mais que somos arruaceiros comunistas contratados por Moscou, mas vá saber o que andaram contando para eles nos últimos anos.

Esse ponto é interessante. Quem chamou a polícia deveria também ter explicado o que é a Universidade de São Paulo e quem são as pessoas que trabalham e estudam nela. Ninguém pensou em organizar palestras com nossos professores para os policiais? Que tal explicar para esses caras que alguns comportamentos que eles podem achar totalmente absurdos são normais entre determinados grupos uspianos? Como explicar à polícia os motivos pelos quais parte da comunidade não quer a presença deles no campus? Alguém avisou que na USP temos muitas bibliotecas e que eles podem frequentá-las, acessar a internet, pedir ajuda para um trabalho escolar? Não, creio que não. Deixem a polícia nos ver sempre como inimigos, assim é mais fácil.

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