sábado, 12 de novembro de 2011

Os marginais

A despropositada, desastrada, estúpida, chocante e ofensiva ação da tropa de choque contra os estudantes e moradores do CRUSP no dia da desocupação da Reitoria me jogou num estado de ódio sufocado que parece até doença. Já passei por poucas e boas na Universidade de São Paulo, mas o sentimento de opressão que estou experimentando agora é inédito. Só duas coisas me consolam: ver as fotos e acompanhar as notícias da mobilização dos estudantes, a maior em muitos anos, e verificar que todos os intelectuais, professores e jornalistas decentes que escrevem sobre o fato se posicionam contra essa ação, com argumentação lógica e sólida. Do lado dos leitores de Veja e Marcelo Tas, que chegou a chamar a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas de “fedídissima e decadente”, apenas insultos e preconceito.

Imagino que nem todas as pessoas que lêem este meu blog acompanhem de perto o movimento de estudantes e funcionários aqui da USP. E sei que muita gente ficou chocada com as imagens e relatos da ocupação da Reitoria por um grupo de estudantes de rosto coberto, entrando no prédio na marra. Normal. Pessoas de rosto coberto remetem a imagens de bandidos e terroristas. Ver um grupo aparentemente furioso forçando a entrada num prédio desperta em todos o medo da violação de sua própria casa, a sensação de que nada mais é sagrado. E depois vemos imagens de paredes pichadas, cadeiras quebradas, supostos coquetéis molotov. A polícia e a imprensa falam em depredação do patrimônio.

Embora eu não seja, em princípio, contra a ocupação de prédios como forma de protesto, questiono muito a validade de ações como essa última ocupação. Medidas de força decididas em assembleias tumultuadas e executadas por um grupo pequeno, além de impopulares, tendem a dividir o movimento. Nossa vanguarda é tão vanguarda que às vezes se esquece de olhar para trás e ver se vem alguém.

Mas vamos com calma todo mundo, principalmente na hora de fazer julgamentos. Equivocada ou não, a ocupação da Reitoria foi um ato político, não um ato de vandalismo. Esses estudantes entraram na Reitoria para exigir a saída da polícia do campus e a retirada de processos contra militantes, alunos e funcionários. Vandalismo seria quebrar tudo e ir embora para encher e cara, e, naturalmente, fumar maconha. E os danos ao patrimônio público? Bem, gente, é só a Reitoria. Sem ocupações e depredações não é lá muito melhor, sem contar que já vi muitos locais na USP em estado pior culpa de incompetência administrativa. É um prédio público pelo qual a gente paga, mas a insistência na expressão “depredar o patrimônio” tem um objetivo. Quando as pessoas ouvem essa palavra imediatamente a associam com patrimônio histórico ou cultural, e esquecem que não se trata disso. Não é um prédio tombado, não é um museu e não é uma BIBLIOTECA importante como a da Faculdade de Direito. Alguém se lembra do que aconteceu com essa Biblioteca?

E quem são esses “invasores” que teriam saído da Reitoria em dois ou três dias, isolados, provavelmente sem conseguir desencadear mais reações dos estudantes, se a PM não aparecesse por lá para transformar sua aventura em jornada heróica? Radicais do movimento estudantil, em sua maioria integrantes de organizações de extrema-esquerda, e provavelmente alguns outros entusiasmados sem ligações partidárias. Geralmente é esse pessoal que faz essas coisas. Não são marginais, não são bandidos, apenas militantes sectários, capazes de transformar uma assembleia num inferno interminável de discursos repetidos, questões de ordem inflamadas, manobras irritantes e, naturalmente, exasperantes declarações de voto. Para quem não frequenta assembleias, explico: declaração de voto é uma forma de falar um pouco mais, quando ninguém mais suporta ouvir nada; o cara vota e explica os motivos de seu voto. O mais engraçado é que eles explicam até porque se abstiveram, como se alguém estivesse interessado.

Essa é a face pública e insuportável desse pessoal. Mas quando a gente conversa com eles descobre outros aspectos. Conheço pessoalmente alguns, que também são funcionários e participam dos nossos movimentos. Gente com boa formação, que poderia conseguir empregos melhores, mas que opta por trabalhar em funções ditas “de peão” por motivação política, para mais ficar perto dos trabalhadores menos valorizados da Universidade. Suas convicções são profundas e sabem fundamentar seus argumentos tanto na realidade quanto na bibliografia, porque são gente que lê e estuda. Preocupam-se sinceramente com as condições de vida da população, porque em sua militância tomam contato com misérias que as pessoas de classe média que os acusam de “filhinhos de papai mimados” nem querem saber que existem. Em nome do que acreditam são capazes de enfrentar situações muito duras, arriscam-se a ser processados, expulsos da Universidade e até presos. E a serem cobertos de insultos na imprensa e nas redes sociais por gente que compra sem pensar o discurso da criminalização dos movimentos sociais. São capazes de enfrentar policiais da tropa de choque, e levar porrada e bala de borracha, e revidar.

Dentro desses partidos e organizações há pessoas de caráter discutível, que se aproveitam dos momentos mais “quentes” do movimento para extravasar frustrações pessoais? Provavelmente. Isso existe em qualquer grupo, e aposto meu estoque de geleias dietéticas como entre os facistóides que aplaudem a violência policial há um contingente ainda maior de pessoas com esse perfil.

No início da greve de 2009 um rapaz do PMCdoM (o Partido Mais Chato do Mundo) veio me oferecer seu jornal. Eu estava com meu melhor humor de cobra cascavel na TPM e respondi que o jornal dele era igualzinho à imprensa burguesa, só que com o sinal trocado. Ideias diferentes, mas a mesma manipulação que eles criticam nos outros jornais. Ele ficou meio irritado - admito que fui grosseira mesmo - e tentou argumentar comigo, mas o deixei falando sozinho. Naquele dia, definitivamente, eu não estava para meninos e jornais. Depois disso nos encontramos várias vezes, durante a greve. Sempre sorridente, ele me cumprimentava com beijinho, conversávamos civilizadamente. “Ainda vou te vender um jornal”, ameaçava, mas nunca mais tentou, nem me aborreceu com papo político. Isso se chama tolerância. Duvido um pouco que jovens da turma do “tem que dar borrachada nesses maconheiros de esquerda” saiba o significado dessa palavra.

Quem quer conhecer um pouco os estudantes da USP que valem a pena, veja esse texto bonito da Patrícia Pimenta:
http://pathellmanns.posterous.com/tolos-e-ouros

E também esse relato de uma estudante do Jornal do Campus, que acompanhou a desocupação:
http://www.facebook.com/notes/shayene-metri/desabafo-de-quem-tava-l%C3%A1-reintegra%C3%A7%C3%A3o-de-posse/233831886679892)Link

3 comentários:

  1. Depois de um primeiro ano no Mackenzie, onde o já falecido Professor Breda concluia algumas aulas citando ..."Seu número (o da besta) é 666", mudei-me para a São Francisco. Não aproveitei nenhum crédito, "afinarrr USP é USP", mas tudo bem. Entre 1980 e 1990 (amei aquela escola!!), nenhum movimento ou protesto mais significativo nos afetou, pois a FADUSP é uma ilha ainda cercada de trombadinhas por todos os lados. Mas uma coisa havia em comum nesses dois campi, ainda que passados trinta anos: centenas de estudantes vestidos de Renato Russo e de Chê, repetindo quase que exatamente frases como "essa imprensa elitista e burguesa" ou "não falo com jornalista da Globo, essa vendida". Ora, antes havia motivos fortes e muito recentes para esse jeito de ser, mas agora, vividos e passados trinta anos do literato do Maranhão, do reinventor do Fusca, do neo-avoengo de Alagoas, de FHC e Lula, que sentido há? Por não mais viver a USP, seria venal entrar no mérito dos protestos, das invasões e da retomada da Reitoria (se feita no estilo "La casa tomada" teria sido ainda mais cruel e mais opressíva), por isso apenas e tristemente concluo que parte desses novos uspianos, garotinhos, garotinhas e abantesmas, sequer refinaram ou minimamente modernizaram o discurso e as palavras de ordem; o gestual é repetido e seguem o mesmo "dress code" à naftalina, são puro "copy and paste", já nasceram obsoletos!

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  2. Primo, algumas coisas acho até bom que não mudem, por mais que às vezes cansem os mais velhos. Porque o Outro Lado também não mudou muito: autoritarismo, elitismo, falta de democracia e de diálogo real na Universidade. Nada disso precisaria ter acontecido.

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  3. Que língua chata: opressiva não leva acento... e ... concluo que parte sequer refinou ou modernizou...

    E os ismos continuam de fatos os mesmos, mas não apenas do lado de Darth-Vader e da Força Obscura, pois sabemos todos que anteriormente ele se chamava Anakin Skywalker e era Deste Lado... tanto quanto Ossama fora queridinho Deste Lado e passou para o Outro Lado... "but the show must go on".

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