domingo, 6 de novembro de 2011

A USP, a polícia, o futuro



Quando escrevi meu post anterior, eu ainda não era contra a presença da polícia no campus. Por medo, simplesmente. Quem fica esperando ônibus no campus nas férias, depois das seis da tarde, entende esse medo.

Mas mudei de ideia. Rápido, não? É o poder do discurso fascista, irracional e preconceituoso vomitado pela imprensa e redes sociais, que nesses últimos dias viraram redes de esgoto sociais. Depois de alguns dias lendo e ouvindo os pseudoargumentos mais escabrosos de gente desinformada e cheia de ódio, fiquei enojada. Não, essa não é a minha turma.

Sei perfeitamente que as pessoas que apóiam a presença da polícia no campus são, provavelmente, a maioria. E não são todos fascistas, são apenas pessoas que têm medo e que acreditam que o policiamento nos dá mais segurança. Mesmo que dê, o preço vai ser conviver com o medo dos abusos policiais.

Esses abusos já começaram a ocorrer, mas ninguém quer falar disso para não ser forçado a admitir uma realidade nada agradável. E vão continuar e vão aumentar, porque a maioria favorável à polícia se cala, não se manifesta e deixa que o discurso fascista cresça e fale por ela. As pessoas que saem por aí dizendo que a polícia tem mais é que sentar porrada nesses estudantes da USP “maconheiros” e esquerdistas estão legitimando e estimulando a violência policial, imaginando, talvez, que jamais serão atingidas por ela.

Não sei como isso vai acabar, mas visualizo um dos quadros possíveis. A polícia não vai sair da USP. Nenhum outro tipo de providência vai ser tomada, porque dá trabalho e custa caro. É mais conveniente imaginar que a polícia resolve tudo. A polícia vai resolver tudo do jeito que ela sabe, afinal de contas as pessoas que a chamaram estão satisfeitas. Os estudantes contrários à PM vão continuar resistindo, fazendo barulho e ocupando prédios. Os grupos mais radicais do movimento estudantil vão partir para ações cada vez mais contundentes. Animados pela presença da polícia e pelo apoio da comunidade às suas ações, os grupos da direita estudantil vão se fortalecer e partir para o ataque. Vamos ver conflitos cada vez mais violentos entre grupos de estudantes rivais no campus, é questão de tempo.

E um dia, um professor desses meio mal vestidos, estilo intelectual desencanado, vai ter um contato imediato do quarto grau com a polícia e não vai achar a mínima graça. A reação na unidade dele – ECA ou FFLCH – vai ser forte, o campus vai pegar fogo, mas a turma do “eu amo a PM” vai justificar a ação policial com base na aparência do docente. Frases:

“Mas onde já se viu professor com esse cabelo?! Não admira que o policial tenha se confundido.”

“São esses marginais que orientam os nossos jovens? Não é à toa que eles não respeitam mais nada”

E a Veja vai botar na capa a foto mais desfavorável do coitado, com a manchete: “Docente ou maconheiro?”.

A Reitoria vai instituir uma comissão para analisar “eventuais desacertos” na ação policial e a mobilização logo vai arrefecer.. .

Algumas semanas depois, outro professor vai ter seu quinhão de polícia. Mas dessa vez vai ser outro tipo de professor, daqueles mais próximos do topo da cadeia alimentar acadêmica, membro de uma comissão de prestígio. Acostumado a não ser contestado e pouco disposto a receber ordens, o professor vai perder a paciência, enfiar o dedo na cara do policial, chamá-lo de moleque e tascar-lhe o famoso “você sabe com quem está falando”. E vai ser levado para a delegacia, porque o evento acontecerá numa unidade onde os estudantes bonzinhos não têm o hábito de cercar viaturas e contestar autoridades.

Dessa vez até o Estadão vai ser prudente. Convenhamos, um pesquisador de tão elevada estirpe ... Mesmo a agressão verbal ao policial vai ser vista em perspectiva, afinal, o estresse da vida acadêmica, o peso das responsabilidades etc.

E então, quieta e discretamente, as viaturas vão começar a desaparecer do campus. Aos poucos, durante as férias, como aves migratórias.

Ah, não vai ser assim, não? Talvez não. É só um dos quadros possíveis.

12 comentários:

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  2. Nas redes sociais da vida, li mais ou menos isso de um ex-aluno da Poli: "como sempre, são os alunos da FFLCH, tinham é que fechar isso e investir mais em ciências exatas, que dão retorno para a sociedade."

    Esperava que um universitário pudesse ver um pouco acima do senso comum. ENADE não avalia formação intelectual crítica.

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  3. Perdão. Ciente do que a trupe aprontou na administração da FFLCH botando até dedo na cara de trabalhador e depois de assistir o vídeo dos vândalos invadindo a Reitoria estou ainda mais convicto que a PM tem que continuar na USP.

    Sou contra qualquer reação violenta a esses estudantes, mas me dói mesmo saber que no fim das contas nenhum deles será punido. Já passou da hora de parar de tratar esses marmanjos como meninos levados, quer discutir administração dos campus pelo menos tente os canais oficiais, se quer radicalizar que ao menos sintam as consequências de seus atos.

    Se alguém achar que sou fascista simplesmente por isso, por mim, tudo bem.

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  4. Rogério, não acho que você seja fascista por isso. As pessoas têm opiniões divergentes, avaliam as situações de formas diferentes, é normal. Querer que os estudantes sejam punidos é bem diferente de querer que eles sejam mortos!

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  5. A gente não precisa concordar com a presença da PM aqui ou ali. Basta reconhecermos que a ação policial é *normalmente* arbitrária e injusta, levando punição (via sentenças sumárias) também a inocentes. Talvez reconhecer esses traços na atuação da PM seja consequência de sentir na pele tais arbitrariedades ou de querer se colocar no lugar de quem já as sofreu. O que é grave ao meu ver é usar os mais esdrúxulos argumentos para justificar a própria falta de habilidade de entender a realidade alheia e reconhecer os próprios preconceitos.

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  6. E, na rael, a primeira vez que se precisou de PM no campus foi na manifestação de 2009, contra estudantes em uma ação política e não contra assassinos, estupradores ou qualquer tipo de criminoso. O que se viu depois disso foram pretextos para a PM residir de forma permanente no espaço da universidade a fim de coibir manifestações políticas. Rodas antes de assumir a Reitoria já era sinônimo desse tipo de ação, a PM já era esperada para reprimir manifestações, como ocorreu em 2009 e a de 2007 na Faculdade de Direito.

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  7. Rogério, propor mudanças via canais oficiais tem sido tentado por esses mesmos estudantes.
    É pouco viável ser até ouvido com tão baixa representatividade. O poder está todo concentrado na Reitoria e na distribuição de cargos para docentes em Comissões.

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  8. Uma vez li um comentário que dizia que não estávamos mais vivendo no começo do pós-ditadura para a entrada de policiais se proibida nas universidades... O problema não é viver no pós-ditadura ou não, é ter uma policia que recebe o mesmo treinamento que recebia quando o regime militar era soberano no país... Não sei o que eu penso...

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Eis que torno após dois dias.
    Fiquei um bocado intrigado com a situação na USP e resolvi ler o teu blog de cabo à rabo... Assim poderia formar uma opinião.
    Parabéns, vivestes um bocado de cosias bacanas e tem uma linha de pensamento interessante.
    Gostei das informações sobre o conflito mais atual aí, porque, pelo visto, houveram vários conflitos... E acho que entendo. Todos nós tivemos maus momentos com a polícia... Todos nós, as vezes, preferimos sermos responsáveis pela nossa segurança a ter um brutamontes armado e carrancudo atrás de nós...
    Enfim... Percebi o tipo de necroxorume que os veículos de informações tem vomitado e tomo a defesa dos estudantes... Mas ainda assim, sinto um incomodo... Não sei dizer bem, mas é algo como se eles tivessem, no furor do momento, se exaltado e destruído a reitoria e agido como gorilas, se exaltado não só na reitoria, digo... apenas um exemplo...
    Não sei, isso tudo é o que consegui reunir e conciliar... Mas fazer o que? Sou apenas um estudante pré-vestibulando do interior de sp que só sabe o que se passa pelo que os outros dizem.
    Obrigado pela experiência, foi interessante

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  11. Obrigada, Pedro! Entendo o seu incômodo. Ações como essa última ocupação da Reitoria são discutíveis, pouca gente na USP as apoia incondicionalmente. Mas a coisa é, de fato, bem menos violenta e destrutiva do que parece. Os estudantes quebram portas para poder entrar, quebram câmeras para não serem reconhecidos, é só isso. E o objetivo não é quebrar, é ocupar. Acho que vou fazer um post sobre isso amanhã ou depois

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  12. Marina coloque a opção de compartilhar seus posts pelo Facebook porque garanto que vai ser muito útil. Seus textos são uma ajuda ao avanço de consciência tão necessário na sociedade.

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