sábado, 10 de dezembro de 2011

Dois caras

Escrevi este texto em 2009 e postei no Memórias da ECA, rede social de ex-alunos da Escola de Comunicações e Artes criada pelo Luís Milanesi. Resolvi publicar aqui também, onde mais gente pode ler, como uma homenagem a tanto funcionários que não fizeram graduação, nem pós-graduação, e cuja importância na formação dos alunos nem sempre é reconhecida.

A memória transforma o passado de forma diferente para quem foi embora e para quem ficou. É mais difícil cobrir as recordações com aquela névoa abobada das saudades da juventude quando se está mais ou menos no mesmo espaço, de cara com muitas evidências da realidade.


Quase não tenho essas lembranças de porres e encontros estudantis, nem fotos de meninos sorridentes em trajes hoje ridículos. Na realidade, mal me lembro dos tempos de estudante. Sei que gostava da ECA, na época um ambiente de invejável tolerância, talvez o primeiro lugar aonde não me sentia mal, mesmo não sendo uma praia ou uma sala de cinema. Descobri que não consigo contar nem 10 colegas dos quais me lembro do nome e das feições. Dá para contar nos dedos das mãos do Lula, como ouvi alguém dizer no ônibus um dia desses.


Dos professores daquela época, lembro apenas daqueles com quem continuei convivendo durantes esses anos todos, tanto quanto funcionários convivem com professores aqui na USP. Os que mudaram ou sempre foram como foram, eu é que não sabia. Aqueles que vejo envelhecerem junto comigo, alguns que vi morrerem. Egon Schaden foi mais ou menos meu chefe por algum tempo, herdei sua espaçosa mesa de madeira. A linda professora de cabelo comprido e bela voz que encantava os meninos e que vi ser assolada por alguma doença longa e cruel, não tive coragem de procurar saber qual era. Algumas pessoas que encontro nos corredores, ligeiramente familiares, mas que nem cumprimento mais, porque não tenho certeza de que sejam quem estou pensando e porque sei que também não se lembrariam de mim.


Fui à inauguração do novo prédio do Departamento de Cinema, contra meus hábitos. Há funcionários, principalmente os portadores de cargos, que acreditam ser importante comparecer a esses eventos. Muitos até botam maquiagem, as mulheres ao menos, ainda não vi funcionários homens de batom e blush. Não me incluo nessa turma, mas cismei de ir. Confesso que esperava algum tipo de manifestação dos estudantes, afinal a reitora, hoje ex, estaria lá. Não houve. A única manifestação estudantil, além da invejável demonstração de apetite no coquetel, foi o discurso de um representante na cerimônia. Que velha estou, sobrevivi para ver isso, estudantes domados.


Ao sair, ainda no início do coquetel, vejo os funcionários do Departamento guardando equipamentos, arrumando a sala, enrolando cabos. Estavam lá alguns dos meus velhos colegas, mas nem todos. Não vi nem o Benê, Benedito de Oliveira, montador de negativos, nem o Felis, o projecionista Felisberto Belisso, aquele que emprestou seu nome ao projetor da bruxa Morgana do Castelo Rá-Tim-Bum. Talvez estivessem por lá e eu não os tenha visto. Estão os dois aposentados mas continuam trabalhando, porque esses caras são os caras. Entre as lembranças nem sempre agradáveis dos meus primeiros anos como funcionária da ECA, se fosse escolher os bons momentos, com certeza Benê e Felis estariam presentes na maioria deles.


O Benê jovem era uma figura impressionante, que me dava certo medo. Parecia um pouco com um feiticeiro índio de filme terror antigo, e eu via nele um olhar severo, assim meio bravio. Imaginem. Quem conhece sabe que poucas pessoas são mais doces e elegantes do que o Benê, coisa que descobri na primeira vez que precisei falar com ele, logo na primeira sílaba, ao ouvir sua voz. Benê me ensinou uma quantidade impressionante de coisas legais, como enrolar corretamente um filme, como fazer uma emenda na película partida sem deixar ar entre a fita adesiva e o material, e, principalmente, como impedir que as minhas mãos inábeis de aluna de biblioteconomia boboca destruíssem o acervo de filmes da Escola. Também me ensinou que a melhor forma de lidar com o triste evento de um filme que desenrolou todinho pelo chão durante a projeção é NÃO DEIXAR que isso aconteça. Porque depois que acontece, não existe um jeito prático e rápido de consertar a burrada. É só desembaraçar, limpar e enrolar tudo novamente, com cuidado e culpa, porque película é coisa frágil. Se for um longa-metragem, a operação pode levar horas e horas. Era. Uma cópia em 16 milímetros de India song, de Marguerite Duras, que resolvi projetar para mim mesma depos do trabalho. Gostava de fazer isso às vezes, à noite, sozinha. India song foi um dos filmes mais estranhos que projetei, deixei desenrolar e enrolei novamente na minha vida.


Não foi com mestre Felis que aprendi a projetar filmes em 16 mm, foi com o Jorge do Consulado da França, mas era ele que ia corrigindo os meus erros, sempre às gargalhadas. Também me dava ingressos de cortesia para sessões no Cineclube do Bixiga, onde trabalhava à noite. Eu tinha um pouco de vergonha de pedir, mas ficava contente com a gentileza. Num momento particularmente glorioso, fui com uns amigos e entramos todos de graça via Felis. Mas talvez minha aula mais notável com o Feliz tenha sido a de como reconhecer um filme de base nitrato, pelo método Felisberto Belisso. Filmes de nitrato, para quem não sabe, entram em combustão espontânea quando atingem certo grau de deterioração. A propósito disso, Felis contou uma de suas ótimas histórias de projecionista. Num evento sobre o Holocausto, projetou um filme de nitrato de um sobrevivente de campo de concentração, que guardava seu tesouro, já um tanto estragado, debaixo da cama! Imaginem, o velhinho era duplamente sobrevivente e não sabia. Mas, voltando à aula, meus problemas com nitrato aconteceram quando examinei algumas cópias 35 mm antigas recebidas havia pouco tempo e não encontrei a tranquilizadora palavrinha “safety” na borda da película. Pedi socorro ao Felis que me explicou como era o teste que os técnicos da Cinemateca Brasileira faziam, mas a gente não tinha material não, “então eu faço assim, fica olhando”. E cortou um pedaço do filme, pegou um isqueiro e zapt, tacou fogo. A coisa praticamente explode, de tão rápido que pega fogo. Era nitrato. Depois eu tive que me virar para me livrar daquelas coisas inflamáveis que estavam lá enroladas no chão da Filmoteca, feito umas sucuris. Quem deveria cuidar da Escola, só para variar, estava fazendo outras coisas, e não achei ouvidos interessados em prevenir um incêndio. Bocejaram-me que não seria possível levar os filmes para a Cinemateca porque não havia carro disponível naquela semana. Quem resolveu foi quem resolve sempre, quem trabalha: o projecionista, o montador de negativos e os motoristas. Com pena da minha aflição, Benê convenceu um deles, provavelmente um que já havia presenciado uma demonstração pirotécnica do Felis, a dar uma esticadinha até a Cinemateca e desovar minhas sucuris inflamáveis.


Foram essas lembranças, percebo agora, que me fizeram ir àquela inauguração.

2 comentários:

  1. Essas memórias me emocionam... Principalmente porque gosto do cinema, queria saber trabalhar nisso... Queria saber lidar com nitrato, com películas quaisquer, com projetores... É uma pena que, ao ler sobre lugares e pessoas tão encantadoras, eu já saiba de antemão que não conhecerei essa realidade. Me gusta de monte ler isso...

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  2. Pedro, muita coisa vai mudar na parte técnica, mas o cinema não vai deixar de ser cinema. Acho até que pode dar tempo de você trabalhar com projetores e películas. E considere a possibilidade de trabalhar na Cinemateca Brasileira ou em outra cinemateca. Uau ...

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