quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A Namorada do Psicopata

O simples e belíssimo filme As canções, de Eduardo Coutinho, começa com uma mulher de olhos bonitos e voz agradável cantando Minha namorada, de Vinícius de Morais e Carlos Lyra. Ela recebeu a letra dessa canção numa carta de um ex-namorado que jamais esqueceu, e anda com as cartas dele na bolsa até hoje. A história é tocante, principalmente quando entrevemos, por trás da situação romântica, o que parecem ser os reais motivos pelos quais o namorado foi tão marcante na vida dela.


Mas, com todo o respeito e consideração pelos sentimentos dessa mulher, devo dizer que não suporto Minha namorada. A melodia é cativante e assobiável, na melhor tradição da vertente tontinha da Bossa Nova, mas a letra do Vinícius me causou aversão logo na primeira vez em que a escutei com atenção, ainda muito menina. Não sei por que a Amélia do Ataulfo Alves ficou com a fama que tem, Minha namorada é muito pior.

Trata-se, basicamente, de um homem dando instruções a uma mulher sobre como ela deve ser e se comportar se quiser ser uma COISA dele, “exatamente essa coisinha, essa coisa toda minha, que ninguém mais pode ser…”.

Para ser essa coisinha a pobre-coitada tem que pensar só no “mané” e estar disposta a ser dele até morrer, como naquelas histórias de psicopatas que a gente vê no Criminal Minds, esse seriado tão sensível da televisão. Autoritarismo da pior espécie, aquela que se apresenta sob o disfarce do carinho e das rimas em diminutivo.

E o hipócrita ainda diz que a namorada não deve “perder o jeitinho de chorar devarinho sem ninguém saber por que”. Ora, ele quer uma mulher que sofra de depressão? Quanto tempo vocês acham que levaria para ela escutar: “Chorando de novo? !? O que você quer, afinal? Te levo ao cinema, te dou presente de dia dos namorados, vou almoçar na CASA DA SUA MÃE e você fica aí, chorando!? NENHUM HOMEM AGUENTA ISSO!!!”

Eu diria que essa canção não é um pedido de namoro, é uma proposta de rendição incondicional, e sem contrapartida.

E isso tudo apenas para ser a namorada. E para ser a “amada pra valer”? Não sei bem o que compositor quis dizer com isso, mas suponho que envolva sexo. Com a amada ele vai transar. Fica mais complicado, porque o sujeito precisa funcionar, não é só ficar de mãos dadas sussurrando diminutivos. Bem, essa predestinada sem a qual ele quer morrer tem que seguir o caminho dele, mesmo que esse caminho seja triste para a infeliz da “amada pra valer”. E eu pensando que as pessoas que se amam deveriam escolher ou construir juntas um caminho, de comum acordo… Mas isso não é um pensamento de coisinha. E no final o poeta ainda tem a coragem de usar a palavra companheira, que significa exatamente o contrário da mulher descrita em seus versos.

Se um indivíduo me enviasse essa letra com intenções namorantes, creio que eu responderia algo assim: “Se você já tem especificações tão detalhadas, tente fazer uma licitação”. Ou: “Querido, assim nem a sua mamãe”. Ou ainda, de forma clássica: “Você tem se olhado no espelho ultimamente?” Deve ser por isso que não tive muitos namorados.

E olhem aqui a letra completa, para vocês não pensarem que estou exagerando:

Minha namorada (Vinícius de Moraes / Carlos Lyra)

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha, essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser…
Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer…
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber por quê…
E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho
Seja triste pra você…
Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos
Os seus braços o meu ninho no silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois.

E antes que alguém me chame de insensível, casca grossa, pessoa totalmente desprovida de romantismo (quase verdade), fria, cruel e radical (verdade), vou avisando que gosto de várias canções de amor. Por exemplo:

Tatuagem (Chico Buarque)

Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem…


Três apitos (Noel Rosa)

Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você


Eu não existo sem você (Tom Jobim)

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim


Valsa brasileira (Chico Buarque / Edu Lobo)

Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu


Fotografia (Tom Jobim)

Eu, você, nós dois
Aqui neste terraço à beira-mar
O sol já vai caindo e o seu olhar
Parece acompanhar a cor do mar


As vitrines (Chico Buarque)

Eu te vejo sumir por aí
Te avisei que a cidade era um vão

E mais: Amor barato (Chico e Francis Hime); Joana Francesa (Chico); Último desejo (Noel Rosa); Eu te amo (Chico); Boca da noite (Paulo Vanzolini) …

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Um blog a mais


Depois de uns 30 anos trabalhando com acervos audiovisuais na USP e vendo as necessidades dos usuários e dos produtores desses documentos sistematicamente ignoradas, não tenho mais muitas esperanças de que a gente venha a ter um bom catálogo para filmes, discos e fotografias e congêneres na USP.

Admito que, pela primeira vez em muitos anos, vejo nos colegas do DT-SIBi disposição para discutir a questão do tratamento desse material. Aquela postura de que só o AACR2 é deus e o formato MARC seu profeta, que não há nada para discutir porque já está tudo resolvido por essas duas entidades mágicas parece estar perdendo finalmente a força.

Documentos audiovisuais, cinema, arte e música não são prioridades por aqui, e não apenas por culpa dos bibliotecários. Essas coisas continuam sendo acessórios e, como tais, fora de qualquer lista de prioridades.

Mesmo assim, continuo descrente. Não vou desistir da briga, mas tenho que aposentar daqui a uns 20 anos, e posso morrer antes disso, então ...

Então estou diante da possibilidade de que todo o meu trabalho acabe se perdendo ou caindo no vazio. Sempre posso escrever trabalhinhos para os eventos da nossa área, afinal temos praticamente um por mês, e eventualmente vou fazer isso. Pelo menos para não ter que ouvir, daqui a uns 20 anos, que a culpa é toda minha por não ter me explicado direito.

Mas é tão chato ... A gente pesquisa, lê pilhas de artigos escritos e publicados em outros países, escreve míseras 15 páginas num estilo tedioso, prepara apresentação, pede verba pra viajar, viaja, fala em 15 minutos e pronto. Ninguém lê. E quando a USP pede pra gente cadastrar um currículo para ser avaliada, não pode botar trabalho apresentando nem artigo publicado, porque eles acham que funcionário não escreve. Nem sei como eles admitem que funcionário fala e pensa.

Enfim, me enchi disso tudo e resolvi fazer outro blog. Pelo menos é divertido, dá menos trabalho e as pessoas se interessam um pouco mais. Nesse outro blog vou escrever sobre minha experiência prática com documentação audiovisual, na esperança de conseguir trocar ideias com outros malucos que também gostam do assunto. Mas não vou parar com este aqui e, como sou atrapalhada, um dia vou acabar trocando as bolas e publicando aqui textos escritos para o outro, e vice-versa. Não reparem.

Visitem lá meu novo blog, por enquanto só tem um post:

A imagem, o som, o tempo

sábado, 10 de dezembro de 2011

Dois caras

Escrevi este texto em 2009 e postei no Memórias da ECA, rede social de ex-alunos da Escola de Comunicações e Artes criada pelo Luís Milanesi. Resolvi publicar aqui também, onde mais gente pode ler, como uma homenagem a tanto funcionários que não fizeram graduação, nem pós-graduação, e cuja importância na formação dos alunos nem sempre é reconhecida.

A memória transforma o passado de forma diferente para quem foi embora e para quem ficou. É mais difícil cobrir as recordações com aquela névoa abobada das saudades da juventude quando se está mais ou menos no mesmo espaço, de cara com muitas evidências da realidade.


Quase não tenho essas lembranças de porres e encontros estudantis, nem fotos de meninos sorridentes em trajes hoje ridículos. Na realidade, mal me lembro dos tempos de estudante. Sei que gostava da ECA, na época um ambiente de invejável tolerância, talvez o primeiro lugar aonde não me sentia mal, mesmo não sendo uma praia ou uma sala de cinema. Descobri que não consigo contar nem 10 colegas dos quais me lembro do nome e das feições. Dá para contar nos dedos das mãos do Lula, como ouvi alguém dizer no ônibus um dia desses.


Dos professores daquela época, lembro apenas daqueles com quem continuei convivendo durantes esses anos todos, tanto quanto funcionários convivem com professores aqui na USP. Os que mudaram ou sempre foram como foram, eu é que não sabia. Aqueles que vejo envelhecerem junto comigo, alguns que vi morrerem. Egon Schaden foi mais ou menos meu chefe por algum tempo, herdei sua espaçosa mesa de madeira. A linda professora de cabelo comprido e bela voz que encantava os meninos e que vi ser assolada por alguma doença longa e cruel, não tive coragem de procurar saber qual era. Algumas pessoas que encontro nos corredores, ligeiramente familiares, mas que nem cumprimento mais, porque não tenho certeza de que sejam quem estou pensando e porque sei que também não se lembrariam de mim.


Fui à inauguração do novo prédio do Departamento de Cinema, contra meus hábitos. Há funcionários, principalmente os portadores de cargos, que acreditam ser importante comparecer a esses eventos. Muitos até botam maquiagem, as mulheres ao menos, ainda não vi funcionários homens de batom e blush. Não me incluo nessa turma, mas cismei de ir. Confesso que esperava algum tipo de manifestação dos estudantes, afinal a reitora, hoje ex, estaria lá. Não houve. A única manifestação estudantil, além da invejável demonstração de apetite no coquetel, foi o discurso de um representante na cerimônia. Que velha estou, sobrevivi para ver isso, estudantes domados.


Ao sair, ainda no início do coquetel, vejo os funcionários do Departamento guardando equipamentos, arrumando a sala, enrolando cabos. Estavam lá alguns dos meus velhos colegas, mas nem todos. Não vi nem o Benê, Benedito de Oliveira, montador de negativos, nem o Felis, o projecionista Felisberto Belisso, aquele que emprestou seu nome ao projetor da bruxa Morgana do Castelo Rá-Tim-Bum. Talvez estivessem por lá e eu não os tenha visto. Estão os dois aposentados mas continuam trabalhando, porque esses caras são os caras. Entre as lembranças nem sempre agradáveis dos meus primeiros anos como funcionária da ECA, se fosse escolher os bons momentos, com certeza Benê e Felis estariam presentes na maioria deles.


O Benê jovem era uma figura impressionante, que me dava certo medo. Parecia um pouco com um feiticeiro índio de filme terror antigo, e eu via nele um olhar severo, assim meio bravio. Imaginem. Quem conhece sabe que poucas pessoas são mais doces e elegantes do que o Benê, coisa que descobri na primeira vez que precisei falar com ele, logo na primeira sílaba, ao ouvir sua voz. Benê me ensinou uma quantidade impressionante de coisas legais, como enrolar corretamente um filme, como fazer uma emenda na película partida sem deixar ar entre a fita adesiva e o material, e, principalmente, como impedir que as minhas mãos inábeis de aluna de biblioteconomia boboca destruíssem o acervo de filmes da Escola. Também me ensinou que a melhor forma de lidar com o triste evento de um filme que desenrolou todinho pelo chão durante a projeção é NÃO DEIXAR que isso aconteça. Porque depois que acontece, não existe um jeito prático e rápido de consertar a burrada. É só desembaraçar, limpar e enrolar tudo novamente, com cuidado e culpa, porque película é coisa frágil. Se for um longa-metragem, a operação pode levar horas e horas. Era. Uma cópia em 16 milímetros de India song, de Marguerite Duras, que resolvi projetar para mim mesma depos do trabalho. Gostava de fazer isso às vezes, à noite, sozinha. India song foi um dos filmes mais estranhos que projetei, deixei desenrolar e enrolei novamente na minha vida.


Não foi com mestre Felis que aprendi a projetar filmes em 16 mm, foi com o Jorge do Consulado da França, mas era ele que ia corrigindo os meus erros, sempre às gargalhadas. Também me dava ingressos de cortesia para sessões no Cineclube do Bixiga, onde trabalhava à noite. Eu tinha um pouco de vergonha de pedir, mas ficava contente com a gentileza. Num momento particularmente glorioso, fui com uns amigos e entramos todos de graça via Felis. Mas talvez minha aula mais notável com o Feliz tenha sido a de como reconhecer um filme de base nitrato, pelo método Felisberto Belisso. Filmes de nitrato, para quem não sabe, entram em combustão espontânea quando atingem certo grau de deterioração. A propósito disso, Felis contou uma de suas ótimas histórias de projecionista. Num evento sobre o Holocausto, projetou um filme de nitrato de um sobrevivente de campo de concentração, que guardava seu tesouro, já um tanto estragado, debaixo da cama! Imaginem, o velhinho era duplamente sobrevivente e não sabia. Mas, voltando à aula, meus problemas com nitrato aconteceram quando examinei algumas cópias 35 mm antigas recebidas havia pouco tempo e não encontrei a tranquilizadora palavrinha “safety” na borda da película. Pedi socorro ao Felis que me explicou como era o teste que os técnicos da Cinemateca Brasileira faziam, mas a gente não tinha material não, “então eu faço assim, fica olhando”. E cortou um pedaço do filme, pegou um isqueiro e zapt, tacou fogo. A coisa praticamente explode, de tão rápido que pega fogo. Era nitrato. Depois eu tive que me virar para me livrar daquelas coisas inflamáveis que estavam lá enroladas no chão da Filmoteca, feito umas sucuris. Quem deveria cuidar da Escola, só para variar, estava fazendo outras coisas, e não achei ouvidos interessados em prevenir um incêndio. Bocejaram-me que não seria possível levar os filmes para a Cinemateca porque não havia carro disponível naquela semana. Quem resolveu foi quem resolve sempre, quem trabalha: o projecionista, o montador de negativos e os motoristas. Com pena da minha aflição, Benê convenceu um deles, provavelmente um que já havia presenciado uma demonstração pirotécnica do Felis, a dar uma esticadinha até a Cinemateca e desovar minhas sucuris inflamáveis.


Foram essas lembranças, percebo agora, que me fizeram ir àquela inauguração.