
Sempre que ouço Ataulfo Alves cantando suas saudades da professorinha que lhe ensinou o be-a-bá lembro-me da megera que tive que encarar no primeiro ano do que na época se chamava "primeiro grau".
Tecnicamente não foi ela a minha primeira professora, porque antes da escola oficial andei frequentando uma escolinha perto de casa para treinar. Já estava meio alfabetizada quando caí nas garras da temível Dona Eugênia, uma dessas beatas deformadas pelo fanatismo religioso que deve ter inspirado diversas personagens de novelas de Dias Gomes, mas ela não poderia saber disso. Minha mãe foi avisada de que a professora, que a cidade inteira considerava ótima, era famosa também por não gostar de crianças que já haviam recebido algum tipo de instrução. Dona Eugênia provavelmente se via como uma espécie de santa e achava que ninguém neste mundo poderia ensinar melhor do que ela, muito menos antes dela. E por causa disso eu já comecei mal, tendo que mentir.
E não parou por aí. A mulher, cuja pele cinzenta e blusinhas eternamente abotoadas até o pescoço me assustavam muito, esperava das crianças um nível de carolice semelhante ao dela e nos forçava a “abaixar a cabecinha e rezar” antes de começar a aula. Isso acontecia numa escola pública. Acho que durante a ditadura ninguém dava muita pelota para a noção de estado laico, muito menos a megera em questão. Eu não era de rezar, minha família oficialmente católica na prática se lixava para padres e igrejas. Abaixar a cabecinha e fingir era algo que me incomodava, eu sentia que estava fazendo algo errado, mas não ousava enfrentá-la. Naquela época crianças não enfrentavam megeras. As segundas-feiras eram o meu terror, porque às vezes ela resolvia perguntar, sem dúvida imbuída das mais sagradas intenções, quem havia ido à missa no domingo. Quem não levantava a mão tinha que explicar o motivo. Morta de vergonha, eu mentia, sob os olhares acusadores das crianças que sabiam que eu nunca havia pisado na igreja. Ela também sabia, naturalmente, e me lançava um olhar gelado, e fazia sermões acusadores, mas nunca me confrontou diretamente. Provavelmente considerava mais divertido me torturar daquela maneira. Dona Eugênia pode não ter me ensinado o be-a-bá, mas me introduziu a conceitos que eu até então desconhecia: intolerância, injustiça, intimidação e hipocrisia. Uma verdadeira santa.
O tempo passou e eu logo aprendi que não se deve abaixar a cabecinha e mentir. Outras professoras carolas passaram pela minha vida, mas eu não tinha mais medo. Já havia aprendido a desprezá-las e confesso que levei muito tempo para aprender a respeitar pessoas religiosas.
Lá pelos 13 ou 14 anos tive outro embate, em outra escola pública da mesma cidade. Era o início da destruição do ensino público e minha escola, tida como uma das melhores do local, não era de fato grande coisa. Se não me engano, foi numa aula de algo que se chamava Educação Moral e Cívica, uma aberração da ditadura. Outra aberração da ditadura, a professora disso, resolveu perguntar, toda certa da resposta, se alguém na classe não acreditava em deus. Minha mão foi a única que se ergueu, para escândalo e gritaria geral. A aberração veio para cima de mim com toda a sua autoridade, mas autoridades também já não me intimidavam tanto. Choveram aos argumentos de praxe. Não me lembro o que respondi, com certeza alguma coisa ingênua e arrogante que fez a professora – chega de chamar a coitada de aberração – proclamar que na próxima aula iria trazer um livro que me provaria, sem possibilidade de contestação, a existência divina. Claro que a prodigiosa obra não apareceu. Se eu fosse uns dois anos mais velha teria perguntando “e aí, professora, cadê o livro”, mas fiquei na minha. O cinismo só veio mais tarde.
Hoje me divirto muitíssimo acompanhando os pegas do meu irmão ateu com as escolas que tentam, discretamente, empurrar religião para Isabela, minha sobrinha. Dando bronca em professora que falou em “papai do céu” para as crianças e se defendeu alegando que “papai do céu” não é deus. Tadinha. Posso ver a cara do meu irmãozinho perguntando: “é o quê, então, algo da família do coelho da Páscoa?” Também gosto de imaginar o que a invencível Isabela faria com uma professora que a mandasse abaixar a cabecinha ...

As experiências ruins dos primeiros anos acompanham muitos.... Tive uma experiência ridícula na 1ª série pública de uma escola perto de casa.
ResponderExcluirA professora, que simplesmente ignoro o Nome até hoje, por não saber usar às 5 horas em que o Estado lhe cedeu autoridade para ensinar um monte de crianças, terminava a aula muito mais cedo e as fazia cochilar! Mas uma das pestes fazia a lição de casa em classe, se recusando a dormir de uma hora pra outra assim do nada.
E não é que a mulher tinha a audácia de rasgar a lição que só deveria ser feita em casa!
Se não fosse minha Mãe notar e agir por mim estaria “cochilando” quando mandassem até hoje! Fico pensando se os outros 39 alunos ainda fazem isso,.
Sou ateu, mas venho de família católica. Portanto fiz primeira eucaristia e crisma. Ainda me lembro de uma das aulas de catecismo em que levei uma reportagem da antiga Globo Ciência, dizendo que oceanógrafos consideraram impossível ter havido um dilúvio universal pelos registros geológicos que encontraram. Lembro também de ter sido execrado e ter ouvido coisas como "a fé está acima da ciência" e tal.
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