As bibliotecas da USP sempre foram roubadas por gente que sabe perfeitamente o valor do que está roubando. Um indivíduo com cara de estudante pegava o livro com suas próprias patas, enfiava sob a roupa e saía com cara de paisagem, desejando um bom dia aos funcionários, esse era o furto típico que acontecia antes de termos câmeras de vigilância, controles eletromagnéticos e salas fechadas e climatizadas para as obras raras ou de maior valor, onde só entram funcionários.
Nada que um profissional mais agressivo e um revólver na cara dos funcionários da biblioteca não resolvam, como demonstrou o assalto ocorrido no Instituto de Botânica do Estado de São Paulo. Temo que a era dos furtos tenha acabado e que estejamos na aurora da era dos assaltos. E se trancarmos os livros de valiosos em cofres e instalarmos detectores de metal em nossas portas, provavelmente veremos o início da era dos sequestros de bibliotecários na porta de suas casas, com direito a famílias transformadas em reféns, como acontece às vezes com os pobres dos gerentes de bancos.
Em todos esses anos de furtos, que ainda acontecem apesar de todas as medidas de segurança, cansei de ver colegas voltando da delegacia deprimidos e humilhados com o pouco interesse da polícia em furto de livros. Eram tratados como se estivessem incomodando os policiais, que têm mais o que fazer, com uma questão de pouca importância. Condescendência e comentários ligeiramente irônicos eram a tônica geral do atendimento policial. Sempre achei estranho, porque pensava que se um livro ou uma revista são suficientemente valiosos para serem subtraídos de uma biblioteca, poderia haver gente perigosa por trás desse negócio tão lucrativo. Sou tão bobinha.
Espero que a polícia considere esse assalto suficientemente grave para motivar uma investigação séria. Tá bom assim ou precisa mais? Precisa de morte?
A opinião pública e a imprensa parecem bastante preocupados com o destino desses livros, embora ninguém se importe muito com as pessoas que tiveram uma arma apontada para suas caras. Pelo contrário, vi um comentário no Facebook de alguém perguntando por que os livros “não forão (sic), protegidos se já havia a informação de que seriam roubados”. Ora, eles foram, como informa a matéria no Estadão que motivou o comentário, mas ninguém esperava um assalto à mão armada. A mesma pessoa também pensa que os livros deveriam ter sido enviados a outro local e questiona se não teria sido o “sentimento de posse da biblioteca” que impediu isso.
Pronto, descobriram os culpados. Não foi um hipotético colecionador de livros de botânica, não foi uma possível quadrilha especializada com sólida experiência no ramo das bibliotecas, não foi o desinteresse histórico da polícia por roubo de livros. Foram os bibliotecários. E não é sempre assim? Se implantamos medidas de segurança, estamos “cerceando o direito à informação”. Se não conseguimos proteger convenientemente o acervo, estamos sendo relapsos e irresponsáveis. Se procuramos a polícia, somos uns chatos preocupados com bobagens. E quando somos assaltados, a culpa é nossa.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
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