sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Eduardo Suplicy

1979: Quase meia-noite, ponto de ônibus em frente à ECA. Minhas amigas e eu estamos pedindo carona, porque não tem mais circular. Sim, naquela época todo mundo pedia carona nos horários mais esdrúxulos, e todo mundo dava. Carona, digo. Pára um carro grandão e bacana, cabem umas 4 meninas no banco de trás. Desconfiada do carro grande, porque o motorista parecia um motorista profissional, sobro sozinha no ponto. O homem no banco da frente, ao lado do suposto motorista, abre a porta e insiste. “Venha, venha, tem espaço aqui!”. Com vergonha de recusar, sento ao lado do homem magro e cheiroso, bonito e vagamente familiar. Ele só faz as perguntas de praxe para as meninas, onde vocês estudam, gostam do curso etc. Apenas um burguês gentil, afinal, que nos deposita em segurança na Vital Brasil. Quando descemos do carro, as meninas estão aos gritos: “Marina, você quase recusou a carona do SUPLICY e acabou sentando ao lado dele!”. Na época, Suplicy era um político jovem, tido e havido com um gato pelas moças. Era mesmo, de fato.

198_ (só bibliotecários vão entender essa data): Passeata no funcionalismo público em greve. A tropa de choque nos espera na Praça da República e acabamos cercados na Xavier de Toledo. Não dava para voltar, tinha bloqueio policial mais atrás. Nunca entendi isso, se eles não querem a gente no local, por que nos impedem de fugir? As lojas todas fecham as portas e ficamos encurralados. Clima de tensão, quem já levou bomba uma vez sabe como é. Claustrofóbica e alérgica, olho em volta e não encontro rota de fuga. Fico imaginando o que aconteceria se a cavalaria nos atacasse ali, naquele lugar. Pânico. Nesse momento uma frase começa a correr a passeata, transmitida pelos seguranças do movimento e pessoas que estavam na linha de frente: o Suplicy está aí, o Suplicy está aí ... Um rapaz conta, olhos arregalados: O Suplicy tirou a bomba da mão do policial! Suplicy e Erundina negociam com a tropa de choque e prosseguimos aliviados e ilesos até nosso destino.

200- (bibliotecários?): Greve interminável, com impasse sério. Reitoria não quer mais negociar, ameaça cortar os salários. O movimento resolve apelar para ajuda externa, Suplicy é o único a vir ajudar. Dia de chuva e frio, lá está o senador com seu guarda-chuva aberto, falando ao celular com o reitor que não queria mais falar com ninguém. Funcionou. A intervenção de um senador era, talvez, o pretexto que ele precisava para resolver o impasse e não ser trucidado pelos gorilas da ala dura.

Inacreditavelmente, Suplicy foi convidado para a festa de fim de greve e, inacreditavelmente, veio. Previsivelmente, subiu no palco e cantamos juntos Blowin' in the Wind. Tive vontade de ir cumprimentá-lo, mas não fui. Não sei fazer essas coisas.

Fevereiro de 2012: Suplicy denuncia abuso sexual por parte de policiais no dia da desocupação do Pinheirinho. Suplicy recita versos de Wando no plenário e a imprensa gargalha.

Tudo bem. Podem rir, podem debochar o quanto quiserem. Eu não rio. Tenho algumas dívidas acumuladas com Eduardo Suplicy.

The answer, my friend, is blowin' in the wind.

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